Leitura do Fim do Mundo II

Estivemos conversando com alguns escritores, críticos, jornalistas e professores a respeito de um tema bastante citado ultimamente: o fim do mundo, que acontece no dia 21 de dezembro de 2012 - mais conhecido como hoje. E, aproveitando os últimos instantes de existência - tanto virtual quanto real -, perguntamos para cada um deles qual seria sua última leitura (ou releitura) antes que o mundo acabe.
Para a segunda dose de leituras da sessão Leitura do Fim do Mundo, convidamos o poeta Ricardo Silvestrin, a filósofa Marcia Tiburi, o escritor Sergio Napp e os os jornalistas Paulo Markun e David Coimbra.
Paulo Markun
Acho que releria O Reino deste mundo, novela do cubano Alejo Carpentier que trata do Haiti no tempo de Toussaint L’Ouverture, um libertador que derrotou franceses, espanhóis e ingleses, mas acabou escravizando seu povo. O personagem mágico do livro é Mackandal, chefe de um quilombo que convenceu seus companheiros de que era imortal.
Releria a história por causa de um parágrafo, que está nas últimas páginas e que tem muito a ver com essa coisa de fim do mundo:
"...o homem nunca sabe para quem padece e espera. Padece e espera e trabalha para gentes que nunca conhecerá e que por sua vez padecerão e esperarão e trabalharão para outras que tampouco serão felizes, pois o homem ansia sempre uma felicidade situada além da porção que lhe é outorgada. Mas a grandeza do homem está precisamente em querer melhorar o que é. É impor-se tarefas. No Reino dos Céus não há grandeza a conquistar, pois ali tudo é hierarquia estabelecida, incógnita derramada, existir sem fim, impossibilidade de sacrifício, repouso e deleite. Por isso, atormentado por penas e tarefas, formoso dentro de sua miséria, capaz de amar em meio às pragas, o homem só pode alcançar sua grandeza, sua máxima medida, no reino deste mundo".
Portanto, pouco importa se há algo além daquilo que conhecemos. Temos muito a fazer, aqui e agora.

David Coimbra
Mas não dá pra ficar lendo enquanto o mundo acaba!
Em todo caso, levaria o Analista de Bagé, pra terminar meus dias rindo.

Ricardo Silvestrin
Iria reler os 50 poemas escolhidos, do Manuel Bandeira. Já que teria pouco tempo, só o melhor do melhor.
Sergio Napp

Marcia Tiburi
Essa questão sempre me pega nos momentos em que estou no avião e penso na hipótese de morrer. Penso, "o pior seria morrer lendo livro ruim". Desde que me dei conta disso, escolho muito o que levo numa viagem. Já me dei mal e fiquei sem saída. Ainda bem que o meu mundo não acabou em nenhum daqueles momentos e pude continuar lendo coisas boas.
Mas é verdade que precisamos nos preparar, pois o fim do nosso mundo se dará a qualquer hora. O fim da sociedade e da história já se deu há muito tempo. Assim, antes do fim do mítico mundo (o fim da noção unitária de mundo), eu leria de novo a coisa que mais gostei de ler na vida que foi o romance Avalovara de Osman Lins. Mesmo assim, como a vida anda, flui e se acabar, acaba de verdade é pra mim ou para cada um, acho que levaria as obras completas do Bruno Schulz. Ou leria o livro que estou relendo hoje: Figura do Erich Auerbach. Mas esse tipo de tema só interessa a quem pesquisa questões pontuais. Bom, de nada adianta pesquisar na eminência do fim do mundo. Será que é por isso - porque o mundo já acabou - que o pessoal parou de estudar a sério?
Um bom jeito de escolher é a pessoa pensar em vida após a morte ou vida após o fim do mundo e antecipar a fantasia de que está do outro lado da história: "a última coisa que li antes do fim do mundo foi..." Se der tristeza do que se leu melhor trocar de livro...
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