terça-feira, 12 de junho de 2012

Amor em capítulos

Hoje é Dia dos Namorados para os brasileiros. Os casais festejam nacionalmente no dia 12 de junho (por ser véspera do Dia de Santo Antônio, santo casamenteiro - casais de porto-alegrenses devotos podem visitá-lo na Paróquia Santo Antônio, que deu nome ao bairro da cidade) e, em 2012, em uma semana de temperaturas baixas, até o sol apareceu para alegrar o dia dos apaixonados e aquecer corações. O amor é um tema consagrado na escrita mundial - e por isto, nesta tarde ensolarada, vamos fazer uma breve retrospectiva de como este sentimento procurou ser retratado na história da literatura nacional.

O primeiro documento escrito relacionado ao Brasil foi a carta de Pero Vaz de Caminha sobre a chegada dos portugueses à terra brasileira. O amor não se encontra como tema abordado no documento, sendo curiosa apenas a postura dos colonizadores ao observarem, fascinados, as "vergonhas" expostas da população nativa.

Gregório de Matos, poeta barroco e satírico, criou sua própria definição (contrastante com os autores românticos que surgiriam no futuro) de amor:
 
O Amor é finalmente
Um embaraço de pernas
Uma união de barrigas
Um breve temor de artérias.

Uma confusão de bocas
Uma batalha de veias,
Um rebuliço de ancas
Quem diz outra coisa, é besta.

Tomás António Gonzaga, poeta árcade luso-brasileiro, evocava a musa Marília para seu nome arcádico, Dirceu, cantando seu amor à figura de uma amada ideal:

As fortunas que em torno de mim vejo,
Por falsos bens que enganão não reputo;
    Mas antes mais desejo,
Não para me voltar soberbo em bruto
Por vêr-me grande quando a mão te beijo.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!
(Trecho da Lira V de Marília de Dirceu)

A maior parte dos autores românticos enxergavam o amor como um sentimento impossível de controlar, puro e imprevisível, emblemático do "amor à primeira vista". É o caso dos personagens de José de Alencar, nos quais o amor brota e nunca morre, tornando o apaixonado um fiel héroi para a pessoa de sua afeição. 

O realismo expunha personagens mais complexos psicologicamente. A paixão é mostrada com diversos aspectos ignorados pelos românticos, e surgem os complicados relacionamentos de casais da literatura brasileira, como é o exemplar caso de Bentinho e Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

O modernismo, cujas propostas estavam preocupadas com a abolição das regras consagradas no fazer literário, já inaugura (de forma mais completa, pois nenhum movimento pressupõe uma unidade no tratamento de qualquer assunto - há diversas retratações do amor em todas as escolas literárias, mas algumas retratações foram mais recorrentes do que outras) a pluridade no tratamento do assunto "amor" na literatura brasileira. Mesmo assim, como maneira de demonstrar um pouco da produção modernista, tão admirada até os dias de hoje, escolhemos o poema Amar, de Mário Quintana:

Amar:
Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados
desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
O amor é quando a gente mora um no outro.

A literatura brasileira contemporânea é tão farta e plural que é difícil analisar o tema do amor. Existem escritores que tratam quase exclusivamente do tema de amor romântico. Outros, quando escrevem sobre amor, fazem-no de maneira com que fique a cargo do leitor entender (ou interpretar) que se está falando sobre paixão. Seria, talvez, uma atitude estranha presentear o (ou a) amado(a) com o trecho de poema abaixo, de Paulo Scott

hoje fui atacado por uma dessas aranhas-gota
são animaizinhos que se alimentam da respiração humana
descem pelos azulejos, aí saltam, picam no pescoço
(geralmente atacam em dupla)
e sobem rápidas para o couro cabeludo,
a vítima tem menos de um minuto
para se ajeitar na posição horizontal,
é a única forma de aplacar a dor
que se alastrará pelos globos oculares,
procurá-las é inútil, desista, elas cavalgarão na sua cabeça,
a paralisia durará meia hora,
você não adivinha a saudade que me veio
quando o efeito do veneno passou
(trecho de Ainda o movimento para o primeiro amor)

Mas, daí, cada casal é um casal diferente. E existe muita literatura, de modo que os casais podem escolher com qual autor preferem passar (ou que escritor escolhem citar durante) o Dia dos Namorados. 

Quem quiser escrever declarações românticas, pode encontrar aqui diversas sugestões de poemas para colocar no cartão de amor. Quem quiser a lista da CLL de cinco casais marcantes da literatura, pode conferí-la aqui. 

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