segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Entrevista - Nelson Rego



Há uma semana atrás, aqui no blog da CLL, apresentamos brevemente o livro Daimon junto à porta, de Nelson Rego, um dos finalistas do Açorianos 2011 na categoria Conto. Hoje, oferecemos ao leitor uma entrevista com o autor quanto ao seu processo de escrita:


CLL - Como tu realizas a estruturação de um conto? Começas a escrever sem saber exatamente para onde as palavras vão te levar ou já tens a ideia estrutural pronta desde o início?

Antes de começar a escrever, penso sobre o conto durante algum tempo. Crio a sua ideia estrutural, o que é também uma forma de vivenciar a trama a ser narrada. Porém, a matéria-prima da escrita é a palavra. E quando o conto começa a tornar-se palavra, a matéria-prima começa a tomar corpo e a recriar os caminhos que foram traçados. O tempo de prévia estruturação de cada conto é variável. São também variáveis a extensão e a profundidade da reestruturação gerada pelo exercício das palavras.

"A boca do jarro" é um exemplo de conto que me revelou gratas surpresas durante a escrita, pois a necessidade de acentuar os contrastes entre as argumentações do filósofo e da mulher sedutora, para, nas diferenças entre os dois, situar algumas luzes e sombras do pensamento de Wittgenstein, acabou por me revelar que o projeto inicial conduzia a construção dos personagens em direção à caricatura. Na passagem do projeto para a busca das soluções de linguagem, os personagens e o conto ganharam uma nova dimensão, acredito.

Já o conto "Nihil", em sua rude estranheza, ficou muito próximo da estrutura  projetada. Busquei, nos contos do "Daimon junto à porta", que o extraordinário fosse apenas uma outra visão das coisas mais comuns da vida. Nessa busca, as relações de mútua influência entre o projeto e as surpresas com a escrita aconteceram com intensidades e formas variadas, mas ambas as coisas - projeto e surpresa - estiveram sempre presentes.
 
CLL - Em que medida tua participação em oficinas literárias contribuiu para tua formação enquanto escritor?

As oficinas do Charles Kiefer foram decisivas. Sempre gostei de ler e escrever, mas, antes de frequentar as oficinas, eu estava me tornando um escritor encerrado em si mesmo, sem o objetivo de ser lido, por paradoxal que isso pareça. Ganhei prêmios com poesia, mas não gostava de minhas poesias. Fiquei algum tempo escrevendo textos algo idiossincráticos, apenas para mim mesmo.

As oficinas do Charles, tanto pelo mestre quanto pelos diálogos com os participantes - entre os quais, encontrei pessoas como a Monique Revillion e a Daniela Langer -, conduziram o conteúdo que havia em mim para as proximidades da linguagem capaz de construir boas pontes em direção aos outros. Engana-se quem julga que oficinas têm por consequência necessária uma padronização dos textos. A padronização é uma possibilidade. Porém, oficinas abrem também caminhos para o desenvolvimento de singularidades. Isso acontece pela própria troca de experiências e pareceres. Ao expor seus textos e receber os comentários e críticas, o participante pode desenvolver, como resposta, o seu jeito único de escrever.

Oficinas, na verdade, não são frequentadas apenas por candidatos a escritor: para confirmar essa afirmação, basta verificar o número de escritores com trajetória consolidada e obras premiadas que continuam a participar de oficinas. O que lhes seduz é justamente esse ambiente de trocas e desafios salutares. O fortalecimento das singularidades pode predominar sobre a padronização quando o condutor das oficinas é alguém como o Charles Kiefer.


CLL - Escreveste contos, mini-contos, ensaios e poesia. Planejas futuramente escrever um romance?

Existe a ideia arraigada de que o conto é uma preparação para escrever uma narrativa longa. Discordo dessa ideia. O conto tem a sua estética própria, mais densa do que a do romance. Cada linha num conto tem um peso mais importante para a unidade do conjunto do que as linhas de um romance. Meu projeto é continuar a escrever contos, mas também tenho vontade de escrever uma narrativa longa que consiga estruturar-se com uma tensão aproximada àquela dos contos.

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