segunda-feira, 28 de novembro de 2011

CooJornal

Outro finalista na categoria Especial do Prêmio Açorianos de Literatura 2011 é o livro CooJornal: Um Jornal de Jornalistas Sob o Regime Militar (organização de Rafael Guimaraens, Ayrton Centeno e Elmar Bones) um lançamento da editora Libretos.

O livro traz uma série de textos selecionados da publicação editada pela Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, e que esteve nas bancas de 1975 a 1982. O CooJornal ficou conhecido por desafiar a censura da Ditadura Militar, ao falar de temas pouco abordados (ou  até mesmo proibidos), como, aliás, você pode conferir no trecho abaixo:

A prática da degola é uma mancha que constrange a história das grandes revoluções no Rio Grande do Sul. Utilizada largamente durante os conflitos de 1893 e 1923, esta forma cruel de eliminação física dos oponentes tinha adeptos de ambos os lados. Escalado para resgatar estes episódios das lutas episódios sangrentos das lutas políticas do Estado, o repórter Ayrton Caetano não encontrou ninguém que admitisse ter degolado, mas a riqueza de detalhes dos relatos obtidos deu a ele a certeza de ter estado frente a frente com degoladores aposentados. Alguns deles conviveram com o lendário Adão Latorre, revolucionário maragato que teria degolado mais de 300 inimigos, em sua maioria mercenários uruguaios, durante a Revolução de 1893.

***

Diante da faca famosa de Adão Latorre, o prisioneiro gritou:

Degola, Negro!

por Ayrton Centeno

Primeiro movimento: a faca é encostada na ponta do nariz do prisioneiro que instintivamente ergue a cabeça. Segundo movimento: a lâmina se insere na carne e desliza de orelha a orelha. Nada sofisticado, é verdade. Mas como técnica de matar, a degola -- adotada com entusiasmo nas revoluções gaúchas de 1893 e 1923, quando as facas se ocuparam indiferentemente de pescoços "republicanos" e "federalistas", "maragatos" e "borgistas", -- provou ser barata, rápida e silenciosa.

A criatividade que o gaúcho sempre exercitou no manejo da faca -- usada para carnear, brigar, limpar as unhas -- também se estendeu à degola, onde várias eram as modalidades. Desde a degola "a la criolla" (de orelha a orelha) até a "brasileira" (dois cortes seccionando as carótidas). Originalidade nunca faltou: ora as vítimas eram degoladas com a cabeça entre as pernas de seu carrasco, como se fossem ovelhas, ora -- como preferia o cabo degolador do coronel João Francisco Pereira de Souza -- deitadas, com queixo sendo seguro pela bota do degolador. Nesta posição, a respiração era impedida pela mão do degolador. as veias do pescoço inchavam e o trabalho ficava mais fácil.

Embora entre suas características estivesse a rapidez envolta no silêncio, muitas vezes essas duas virtudes eram as substituídas pela morte lenta e um grunhido terrível. Alcides Veleda, ex-combatente da Revolução de 1923, testemunha da degola, tem na sua memória pedaços ainda sangrentos desse passado:

-- Quem gostava de matar era o cabo Soilo. Pegamos um oficial do Zeca Neto, e o cabo Soilo, depois de confessar o homem, se preparou para degolar. Aí o oficial disse: eu sei que o senhor vai me matar, mas quando passar por Dom Pedrito, faça o favor: entregue isto pra minha filhinha. Era um retrato. Cabo Soilo passou a faca no homem e deixou ele de bruços, estrebuchando devagar. Eufrásia, minha mulher, ainda disse: barbaridade, não deixa o homem assim que não presta.

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