quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Guto Leite: um recorte sobre o Prêmio Açorianos

Foto: Schari Kozak .
O vencedor do Prêmio Açorianos de Criação Literária 2012 com o original Entrechos ou Valas do silêncio, Guto Leite, poeta tal qual é, nos deu uma excêntrica descrição sobre como foi (e tá sendo) curtir esse recorte premiado da sua vida. Proprietário de uma palavra cutucante, o poeta não economiza força poética pra nos contar, em curtas - e boas - imagens, o que anda acontecendo:

Receber o Prêmio Açorianos não foi nada simples pra mim. 
Considerando-me o azarão, com tantos bons poetas na disputa, sentei bem ao canto da plateia e estava muito menos nervoso do que minha noiva, por exemplo, mordendo a boca por dentro, disfarçando com carinho sua aflição. Ao anunciarem meu livro, desajeitadamente passei por todos os amigos rumo ao corredor, dei um pique ridículo até o palco (todo pique de gordo é ridículo) e as falas, nada ensaiadas, saíram rápidas e omissas. Agradeci à companheira, à família, aos professores, aos alunos e à Secretaria de Cultura, disso me lembro. Nominalmente, muitos foram imprescindíveis – no exato peso da palavra – e não consegui citá-los. Gabriela. Rodrigo. Guilherme. Marina. Douglas. Daniel. Lígia. Ivan. Thaís. Janaína. Paulo. André. Vilma. Alcir. Marisa. Jonas. Antonio. Roberto. Luís. Homero. Thiago. Guilherme. Raul. Daniel. Pedro. Luciano. 
Desci do palco e as horas que se seguiram decantaram em mim a mais intensa das alegrias: a alegria triste. Sempre achei a felicidade um sentimento estranho, simples demais para ser interessante e, na maioria das vezes, um sentimento ingênuo, guardado pra quem não pensa muito, que acha um “pooooorre” pensar. A felicidade completa então! Me desculpem os olhos mais delicados, mas esta é reservada com exclusividade aos completamente insensíveis ou completamente imbecis, às vezes combinados. É preciso relevar muita coisa para ser feliz todo o tempo. 
Há, no entanto, outra felicidade, esta. A felicidade de que ali se imagina completar um capítulo do romance de nossas vidas. A felicidade de sentir e tentar segurar a todo custo a pele do tempo. A felicidade de projetar no futuro aquele momento de alegria. A felicidade de sentir a ausência inevitável dos mortos queridos naquela ilha de júbilo. A felicidade de entender que, no frigir da estátua, o prêmio é o espaço máximo da solidão. 
Claro que essa felicidade não é atributo preferencial de premiação literária. Creio que seja, aliás, essa a felicidade costumeira das pessoas vivas. Essa gente, que ora cabisbaixas, vai pensando nas coisas, criando, sorrindo, compondo, amando, ensinando, dizendo... Desse jeito, são extremamente felizes os rostos de olheiras de dezembro, os heterodoxos, os intuitivos, os de viés. A felicidade solar e publicitária é qualidade dos que vão mortos, afogando a sensação da passagem do tempo (componente dialógico da felicidade triste) em apartamentos, carros, I-coisas e filhotes mal educados. 
Preciso me livrar logo dessa felicidade triste e voltar ao trabalho de escrever. Ainda estou digerindo, sabem? A roda viva me trouxe, uma semana depois do prêmio, um 2013 incerto, o que não é sinal para ser triste, mas para ser alegremente triste, como sou quase sempre. O problema do prêmio, de todos os prêmios, é que ele recorta um pedaço delimitado de tempo e é preciso recompô-lo no contínuo para seguir sendo. 
Tenho cá com meu camões o sonho secreto de ser árvore. Não falo de ecopoesia, por suposto, mas da imobilidade eternamente à espreita das árvores. Árvores não precisam ir a noite de prêmios. Árvores não precisam desengonçar-se até o palco. Árvores não se doem ao omitir outras árvores. O único prêmio da árvore é durar.

E pra dar um leve gosto do que vem por aí no próximo ano, selecionamos alguns trechos diretamente extraídos do original avaliado e premiado pelos jurados do Prêmio Açorianos. Uma prova quentinha do muito que Guto Leite ainda tem pra mostrar:

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