sexta-feira, 25 de maio de 2012

Chute na estante: Glênio Peres e seu caderno de notícias



Nós, jovens porto-alegrenses, quando ouvimos ou lemos o nome de Glênio Peres, não hesitamos em associá-lo apenas ao largo (e não por coincidência) de mesmo nome localizado em frente ao Mercado Público da capital. Pois bem, o Chute na estante desta vez derrubou mais um livro da sessão de poetas gaúchos da biblioteca municipal Josué Guimarães: o Caderno de notícias (COOJORNAL, 1978), do poeta, jornalista, ator, compositor, advogado e (ufa!) político rio-grandense Glênio Peres.

Dizem os jornalistas que a figura de Glênio era interessante - definitivamente marcante por onde passava. Tão forte como marcante, o poeta - sendo também todas as outras coisas além de poeta - passou por diversos locais: trabalhou nos já extintos Diário de Notícias e O Estado do Rio Grande; coolaborou com O Pasquim e a revista Cadernos do Terceiro Mundo; elegeu-se como vereador na cidade de Porto Alegre, sendo, logo depois, cassado com base no AI-5; e, após a anistia, foi nomeado, ao lado de Alceu Collares, vice-prefeito da capital gaúcha. Glênio morreu vítima de câncer em 1988 e, merecidamente, recebeu uma homenagem digna de sua figura: o conhecido largo com seu agora não tão lembrado nome.

Pois o livro que caiu em nossas mãos não nega a brasa nervosa com que Glênio Peres enfrentava seu mundo. Tarso Genro soube argumentar sobre o próprio título que leva a obra: "ao invés de Caderno de notícias, este livro poderia ter o título de depoimento sobre temas impuros ou o que penso desta realidade asfixiante ou ainda de como a poesia pode intervir diretamente na conjuntura sem perder sua relação com a arte." E, nesse ritmo, Tarso ainda ressalta:

- Acredito que o livro de poesia de Glênio Peres o dignifica como homem e o qualifica como poeta, porque ele consegue elevar os aspectos dramáticos da nossa existência ao nível da poesia, aberta, clara, fácil, como são todas as coisas verdadeiras. Não posso deixar de registrar que ela tem aspectos chocantes para os que sentem e defendem a arte como um território privado, no qual os intelectuais escrevem para outros intelectuais e os iluminados escrevem para os iluminados, numa espécie de compra e venda de elogios e recomendações.

As poesias do Caderno são distribuídas em quatro sessões, sendo elas Caderno de Notícias Minhas, Caderno de Notícias da Cidade, Caderno de Notícias Cá da Terra e Caderno de Notícias de Outras Bandas. E cada uma, logicamente, restringe-se por temas explícitos já no seu próprio nome. Enquanto a primeira expõe reflexões mais subjetivas do poeta, a segunda discorre (se é que podemos falar assim com poesia) sobre ruas e locais da capital. Já na terceira sessão, o foco é um pouco mais abrangente, com determinadas temáticas brasileiras. A última, como o nome já indica, apresenta discursos sobre o exterior, trazendo países como México, Estados Unidos e Cuba para dentro de seu texto.




I
Caderno de Notícias
Minhas



Canção para ninar meu pai

Aos setenta e dois anos de idade
um bisturi entrou na barriga do meu pai.

Fosse mais abaixo
encontraria a matriz
de uma dúzia de filhos.

Fosse na cabeça
a memória
de tantas necessidades e tristezas

Fosse nos braços
ou nas pernas
o cansaço de todas as penas do trabalho

Foi na vesícula:
encontraram uma pedra.

Fosse no coração
achavam ouro.


Das definições

Quem quer definir saudade
não diz nada - fala a esmo - 
saudade não se define:
saudade é saudade mesmo.


Brava gente

Mulheres
sois perigosas
guerrilheiras desarmadas

De noite agitais o sono-
pesadelo dos tiranos
de dia agitais o lenço
da paz pelos torturados

- De onde tirais força 
para lutar com palavras
a fé contra as ditaduras?

Por certo de vosso ventre
onde se gera a criança
livre que o mundo terá

Quando não houver exílios
nem prisioneiros de idéias
algozes espancadores
espiões da violência
exploradores de homens
- Que fareis, bravas mulheres?

Descansareis da guerrilha
pela Anistia no mundo
embalando em vossos braços
os filhos da Liberdade.




II
Caderno de Notícias
da Cidade



Alvorada

- Levantem, meninos!

- Onde já se viu
dormir assim na rua
sob jornais e sobre papelões?

- Além do mais
saibam que o Calçadão
foi feito
para humanizar
esta cidade.

- Levantem, meninos!


Nem favela

Um dia
Velha Restinga
visitei o teu colégio
- Tu sabes o que achei?
piolho e sarna
Restinga
nos cabelos das crianças.

Elas não passam na escola
como os meninos que comem.
Já nascem com a cabecinha 
lesionada pela fome.

Velha Restinga
ainda doem
teu barro nos meus sapatos
e a memória dos casebres
residência da miséria.

Te falta tudo Restinga
porque nem favela és
te falta um mosso de pobres
para ter ricos aos pés.




III
Caderno de Notícias
Cá Da Terra



Constatação

Não se diga:
- O Rei está nu.
A mentira é pecado.
Diga-se:
- Olha a espada do Rei.


No país do Jogo Proibido

Responde, espelho meu:
- Que país dá ao trabalhador
mais do que eu?
Só na Esportiva
são quarenta milhões
cada semana
fora o turfe
a loteria
e outros bichos.


Escola maternal

Vem cá
fedelho
subversivo
comunista
marxista
leninista
trotskista
do alto dos teus
dois anos de idade
e com a doutrinação
que recebeste
nas escolas
Oca e Oficina
do Paraná
diz 
P A P A I .




IV
Caderno de Notícias
De Outras Bandas



Argentina

Outra batida na porta:
- É o bando de caçadores 
de irmãos para assassinar

um grito
metralhadoras
mais um morto na calçada

- Quero de volta meu pai!
- Onde levaram mi hermana?
- Hijos de puta... e um ai

Cai um pesado silêncio
cinza chumbo na Argentina
Buenos Aires desde muito
veste sua capa de medo.




Chute a estante você também:

                  Caderno de notícias
Glênio Peres
Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (COOJORNAL), 1978.
Disponível na biblioteca municipal Josué Guimarães

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