quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Entrevista: Benedito Saldanha

No mês de janeiro, o blog da Coordenação do Livro e Literatura iniciou a seção Salvo do Esquecimento, com o intuito de relembrar autores gaúchos importantes para a produção literária do Estado, cujos nomes são familiares, mas cujas obras, contanto estudadas e objetos de trabalhos de pesquisas acadêmicas, deixaram de ser abordadas em discussões diárias sobre cultura e na mídia. Com a reapresentação de vários escritores prolíficos e importantes para a história do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre, muitas vezes falamos da Sociedade Partenon Literário. Ressurgido em 1997, o Partenon vem desde então realizando, além do esforço do resgate do legado cultural da capital gaúcha, diversas atividades para o incentivo da produção literária regional. Conversamos com o atual presidente da Sociedade, o escritor e pesquisador Benedito Saldanha, sobre a história e os planos atuais do grupo.     

CLL - São 143 anos desde a fundação da Sociedade. Como você definiria o grupo e seus feitos para quem ainda não o conhece? Qual é a relevância dele para  Porto Alegre?

Benedito Saldanha - O Partenon Literário foi a primeira associação de escritores — e poetas — da então Província do Rio Grande do Sul, criado anos antes da Academia Brasileira de Letras. Reunia os maiores intelectuais da época como Caldre e Fião, Apolinário Porto Alegre, Múcio Teixeira e Luciana de Abreu. Entre seus objetivos estava o de apresentar a produção literária gaúcha que se fazia naqueles anos onde quase não havia editoras nem bibliotecas. Criaram então a Revista Mensal da Sociedade Partenon Literário (hoje considerada uma raridade) que teve várias edições e se tornou documento obrigatório para se conhecer a história da literatura gaúcha. Mas o Partenon fez mais do que isso: criou aulas gratuitas, uma biblioteca valiosa, um museu, abriu espaço para manifestações feministas, lutou pela abolição, participou do movimento pela república e ajudou a difundir a produção teatral.

Sua relevância está na formatação que deu à literatura dos pampas, até então com poucos autores. Um medidor da importância dos integrantes do Partenon pode se observar quando andamos pelas ruas de Porto Alegre: segundo pesquisa nossa, 25 nomes de ruas homenageiam os nomes destes escritores imortais. Para se ter uma idéia, até Julio de Castilhos escreveu nas páginas da revista.


CLL - Como surgiu a ideia de reorganizar o movimento?

Benedito Saldanha - Em 1997, como uma iniciativa de poucos autores como forma de resgatar o movimento e dar continuidade às atividades do grupo que já havia encerrado oficialmente no final do século 19. O Partenon e sua história estavam então limitados aos livros de poucos pesquisadores, apesar de ser matéria importante nas universidades e leitura recomendada para vestibular.


CLL - Qual é a principal preocupação e objetivo do Partenon Literário hoje? A política e integração entre literatura e sociedade ainda são discutidas?

Benedito Saldanha - A primeira preocupação da gestão atual — que iniciou em 2009 — foi manter vivo os ideais da associação, agregando todos os sócios, uma tarefa difícil, mas em que tivemos sucesso. Depois continuamos apresentando a produção literária de sócios e convidados através da publicação de um livro anualmente. O Partenon hoje luta para manter-se vivo e implementar ações que ajudem a chamar a atenção da sociedade para a importância do grupo como a criação de concursos literários, realização de palestras, saraus, exposições e reconstrução do busto do Apolinário que foi depredado na Praça Argentina. E com a conquista de uma sede definitiva queremos abrir o Partenon para toda a comunidade, de forma que todos possam ter acesso à história de Luciana de Abreu, a primeira feminista do estado, para tomar um exemplo. Mas quero destacar que um dos principais objetivos neste momento é a integração com outras associações literárias e movimentos culturais, pois isso vai fomentar a leitura, incentivar o conhecimento e reforçar o conceito de Porto Alegre como polo de cultura.

Sim, nos preocupamos bastante com esta integração das letras com a sociedade em geral, mas muitas ações que fizemos neste sentido demoram a surtir efeito porque não há uma divulgação merecida por parte dos veículos de imprensa. O Partenon, que já levantou muitas bandeiras em outras épocas, tem muito a contribuir para a cidadania de cada porto-alegrense, mas precisa de uma maior divulgação por parte da imprensa gaúcha, do contrário fica difícil, pois cada ação exige uma publicidade realmente abrangente.


CLL - O que podemos esperar em questão de eventos e iniciativas pelos próximos meses?

Benedito Saldanha - Nossa principal ação agora em março é o lançamento do CD com o hino oficial, composto por sócios do Partenon. Em abril pretendemos fazer um ato de protesto junto ao busto destruído de Apolinário para chamar a atenção da imprensa e sensibilizar o poder público para que tome providências. Nossa biblioteca oficial será aberta ao público também em abril e no dia 18 de junho, data da fundação, o Partenon deverá receber a comenda de Honra ao Mérito concedida pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Sugerimos ao poder público também que se crie a “Calçada da fama dos escritores gaúchos”, mas isto depende de recursos que o Partenon não possui. Teremos muitas ações em 2012, pois o Partenon Literário e todos aqueles pioneiros de 1868 merecem a nossa luta!

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