sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Caldre e Fião

Aqui no blog da CLL, começamos agora uma nova seção. Salvo do Esquecimento tem por objetivo relembrar autores que estão longe de figurar na rotina da mídia ou nas conversas diárias. Conheça abaixo quem foi nosso primeiro resgatado.

Caldre Fião está próximo a Thomas Edison e Padre Antônio Vieira. Pelo menos, quando o assunto é a cartografia das ruas do bairro Santo Antônio, de Porto Alegre. Hoje, provavelmente, o nome é lembrado majoritariamente pelos clientes do Bar do Ricardo ou pelos frequentadores de postos de gasolina e supermercados vários, que ficam nessa mesma via. José Antonio do Vale Caldre e Fião pode não ter muito espaço na lembrança relacionada com a história da literatura, porém, sua presença é de enorme importância. Fião, além de nome de rua, é um abridor de caminhos. Cabe a ele o segundo romance brasileiro, feito após A Moreninha de Joaquim Macedo de Andrade (1844), o primeiro elaborado no Rio Grande do Sul, e o percussor do regionalismo no País. Fião compartilha com outro escritor da época, José de Alencar, o mesmo interesse em explorar a geografia desconhecida do território brasileiro, e de maneira mais relativa a nós,  das terras gaúchas ( o que Alencar bem tentou fazer, mesmo a distância, em O Gaúcho, no ano de 1870)

Em seu livro de estreia A Divina Pastora (1847), lançado aos 26 anos, o autor se dedicar em criar uma história nos moldes em que vivia o estado sulista nessa época. Na narrativa, definida como uma novela rio-grandense, o leitor tem a oportunidade de conhecer a Porto Alegre de 1845, seus hábitos e localidades. A história, que também se desenvolve nas cidades de São Leopoldo e Viamão, tem como centro de sua principal intriga a paixão da donzela Édélia por seu primo Almênio, guerreiro farroupilha, que irá se casar com Clarinda, filha de imigrantes alemães. Seguindo a tradição dos folhetins, surge Francisco, com um perfil típico dos vilões, para aumentar os conflitos. Almênio, segundo o professor Flavio Chaves, surge como antecedente de Blau Nunes, Cambarás e Amarais. Ele é um guerreiro que coloca sua vida pela revolução de 1835. Porém, essa  direção política escolhida o afasta de Édélia, que despreza a causa revolucionária. Mais tarde, o jovem troca de lado e nega o movimento, se unido ao exército imperial. 

Contudo, já é tarde para ficar com a moça, já que o soldado acabou por se comprometer com Clarinda. A tensão política, que se reflete nas escolhas amorosas, acaba por compreender a complexidade do tumulto e descompasso em que vivia a sociedade gaúcha nesse tempo. O romance, além de nos apresentar os questionamentos comuns naquele território do século XIX, tem como uma de suas principais contribuições o tom de registro e de documento, que surge na tentativa de Fião em caracterizar e esboçar a paisagem gaúcha. Essa é uma atitude comum dos escritos de seu tempo, a de buscar uma identidade nacional, no caso específico, regional.  O romance de Fião, peça de encaixe insubstituível na construção do trajeto da literatura brasileira, permaneceu durante 145 anos apreendida por um mistério. Isso porque apenas em 1992 foi possível localizar um exemplar da obra, e assim, conhecê-la efetivamente. Ainda no mesmo ano, o livro foi reeditado pela Editora RBS, encontrando-se finalmente ao alcance de todos.

Durante sua vida, Caldre e Fião (1821-1876) desempenhou diversas funções. Foi boticário, professor de línguas, jornalista, médio homeopata e político. Membro do Instituto Homeopático do Brasil, fundador e membro efetivo do Liceu Médico-Homeopático, lente substituto de Farmácia da mesma Escola, redator-chefe da Enciclopédia dos Conhecimentos Utéis. Era ativista da causa abolicionista e fundou o jornal O Filantropo entre 1849 e 1851, no Rio de Janeiro. Além disso, foi membro da Sociedade contra o Tráfico de Africanos e Promotora da Colonização e Civilização dos Indígenas, da qual foi um dos fundadores em 1850. Na política, foi deputado pelo partido Liberal Progressista em 1855. A importância de Caldre e Fião vai além de seus romances, atividades políticas e médicas. O autor foi um dos fundadores, ao lado de Apolinário Porto Alegre, da Sociedade Paternón Literário, uma associação literária, sediada em Porto Alegre.

Fundada em 1868, a iniciativa foi uma das mais efervescentes da história cultural e literária do Estado. Nascida em meio a Guerra do Paraguai, ao avanço de ideias republicanas e abolicionistas, o movimento conectou e fez fluir informações, textos e pensamentos entre os autores membros, promovendo um sólido palco de cultura. Além de divulgar a literatura e seus feitores, o grupo tinha também como preocupação expandir os conhecimentos do público geral, e para isso, oferecia oficinas para a comunidade e mantinha uma biblioteca própria.

O Partenon Literário, que precedeu 30 anos a Academia Brasileira de Letras, publicou diversas obras literárias, assim como a Revista Literária, que circulou por dez anos e continha críticas literárias, biografias, comentários, editoriais e estudos sobre a história e cultura gaúchas. A Sociedade também estava muito ligada as correntes políticas que eram debatidas nesse período. Temas como Revolução Farroupilha, casamento , pena de morte e feminismo eram discutidos em reuniões. O grupo fomentou diversos autores e obras, e fez serem conhecidos autores importantes atuamlemnte para a formação histórica-cultural. 

São alguns deles: Alberto Coelho da Cunha (Vítor Valpírio), Augusto Rodrigues Tota, Aurélio Veríssimo de Bittencourt, Bernardo Taveira Júnior, Carlos von Koseritz, Francisco Antunes Ferreira da Luz, Francisco Isidoro de Sá Brito, Hilário Ribeiro, Inácio de Vasconcelos Ferreira, José Bernardino dos Santos, Lobo da Costa, Múcio Scevola Lopes Teixeira, Luciana de Abreu,a primeira mulher a subir na tribuna para falar em público, Luísa de Azambuja, Amália dos Passos Figueroa e Revocata Heloísa de Melo. 

As atividades da Sociedade pararam por volta de 1925. Porém, no ano de 1997, inspirados por esse evento histórico, um grupo de intelectuais porto-alegrenses decidiram refundar o Paternón Literário e até hoje realizam atividades. 

Outras obras do autor: Elementos de Farmácia Homeopática, 1846; A Grinalda, romance, 1848; Elogio Dramático ao Faustosíssimo Batizado do Príncipe Imperial D. Pedro, poesia, 1848; Imerisa, romance, 1848; O Corsário, romance, 1849.

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