terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Retrospectiva Açorianos: 2002

 Vencedor na categoria poesia: Terceira Sede, de Fabrício Carpinejar

“Atravessei o século e ainda não me percorri. Tornei-me o diário de uma viagem cancelada”, assim escreve Carpinejar. Porém, não o que conhecemos agora, e sim, um outro possível Fabrício no auge dos seus 72 anos, a depurar como o título declama a “terceira sede”. Nas primeiras páginas da obra o poeta já nos avisa: “O livro é de 2045, escrito aos 72 anos. Como posso ter morrido antes, decidi antecipar a velhice”. E é dentro dos moldes dessa ideia que o livro se constrói, com dez elegias a exercitar o que mais fica de uma vida naquele em que ela perpetuou. 

Antecipar a velhice. Carpinejar parece não querer perder nada, por isso, faz o que poucos arriscam e viaja criando seu próprio tempo. A infância, o amadurecimento e a terceira idade parecem estar sempre se alterando, já que em resumo, ambas são sustentadas pelo mesmo desejo, a impossibilidade da saciedade. Essa obra faz isso, permite ao autor e ao leitor se colocar na condição de viver uma intensidade fora da cronologia da realidade.

Segundo o jornalista Carlos Heintor Cony, o livro é “definitivo como um poema em si, mas inconcluso como a própria sede nunca saciada”. Para o professor universitário Luís Augusto Fischer, a voz que predomina no livro não é bem de uma pessoa e sim da memória em si. É ela que busca uma compreensão continuamente e que ao se arriscar nesse caminho acaba criando imagens raras e uma linguagem surpreendente em suas metáforas. O amor e a juventude, por exemplo, são abordados de forma forte assim como Fischer escreve na apresentação do livro, de maneira que o leitor chega a escutar um longo e discreto gemido de dor ininterrupto, uma única meditação triste. 

Abaixo, uma pequena prova do que foi comentado:

Ando o dia inteiro a perseguir teus traços.
As esquinas se dobram como pétalas apressadas
murchando os passos. Olho os dois lados
 ao atravessar o teu rosto. 


Mais sobre o autor: 

Fabrício Carpi Nejar, ou Fabrício Carpinejar (como passou a assinar desde 1998), é escritor e jornalista. Estreou na literatura com o livro As solas do sol (1998). Ao todo já publicou mais de 12 obras entre crônica e poesia. Entre outras premiações, recebeu o Prêmio Jabuti e o Prêmio Nacional Olavo Bilac.

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