segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Retrospectiva Açorianos: 1996

Categoria narrativa longa: Netto perde sua alma, de Tabajara Ruas

Se alguns teóricos insistem em ainda afirmar que a história é ficção, Tabajara Ruas leva isso ao extremo em seu romance. Tratar abertamente de um evento da memória por meio da imaginação, no caso a Revolução Farroupilha, é a forma escolhida por ele para fazer literatura.

Quando se fala em Guerra dos Farrapos, dois personagens costumam se destacar na mente de todos, são eles Giuseppe Garibaldi e Bento Gonçalves. Informações sobre essas figuras se alastram em enciclopédias e livros didáticos. Porém, Ruas se interessa justamente por uma silhueta ainda não tão bem compreendida, a de Antônio de Souza Netto, personalidade menos popular. Na ausência de dados à respeito do general, a criação literária é a chave para preencher esse espaços.

No livro Netto perde sua alma (1995) o escritor se dedica a recriar a vida desse personagem que participou de todas as guerras de fronteira e revoluções que se sucederam no Rio Grande do Sul no século XIX. Através dele, outras figuras da época despontam, e por meio da reconstrução desse cenário, ocorre uma investigação sobre a psique humana, envolvendo temas universais sobre a relação entre o indivíduo e o mundo.

Assim como outros livros do autor com a mesma temática, há também uma certa mitificação dos personagens. O destaque que o diferencia está na preocupação de Ruas em abordar as injustiças cometidas contra os negros, que se deram no pós-guerra, fato que costuma ser ignorado. Basicamente, a narrativa se inicia quando general Netto é ferido em combate na Guerra do Paraguai. Ao se recuperar no Hospital Militar de Corrientes, na Argentina, ele percebe algumas situações esquisitas. Ao lado do sargento Caldeira, Netto passa a lembrar diversos períodos da sua vida que envolve as batalhas nas quais participou.

A prosa de Ruas é composta por diálogos bem escritos, cuidadosos em retratar o sotaque gaúcho, uma linha de tempo que se altera entre passado e presente, monólogos, imagens criativas e descrições cinematográficas bem elaboradas. Embora o enredo principal trate de um acontecimento regionalista, é chamativa a capacidade de alcance que o subtexto de Ruas possui. Seus personagens são donos de uma ambigüidade característica da natureza humana, que se potencializa ainda mais em uma situação de guerra onde só há lugar para maniqueísmos.

Em 1999 o romance foi adaptado para o cinema pelo próprio Tabajara Ruas com a colaboração do cineasta Beto Souza.

Mais sobre o autor:

Tabajara Ruas (Uruguaiana, 1932) ainda é jornalista, publicitário e cineasta. É autor de 11 títulos publicados. Em 2007, lançou o documentário longa-metragem Brizola - Tempos de Luta e em 2008 o filme Netto e o domador de cavalos. Atualmente está produzindo o longa Os Senhores da Guerra.

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