sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Entrevista: Robertson Frizero

Autor do livro Por que o Elvis não latiu?, finalista do Prêmio Açorianos de Literatura 2011 na categoria Infantil, Robertson Frizero desenrola a trama de sua história no ambiente de relações familiares, tratando da questão problemática da perda de alguém que se ama.

A Coordenação do Livro e Literatura conversou com o escritor carioca, que reside em Porto Alegre há mais de dez anos, sobre literatura, o processo de escrita e criação de histórias. 

Quando foi que você decidiu trabalhar com literatura infantil e infanto-juvenil? O que te levou a essa escolha?

Comecei a escrever muito cedo, mas considero que minha carreira literária teve início com a participação na Oficina de Criação Literária da PUCRS, sob a orientação do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, e da Oficina de Dramaturgia DRAN, idealizada e orientada pela diretora e dramaturga Graça Nunes. Desde então, escrevo diversos gêneros, da novela literária ao texto teatral, e comecei a publicar pelos caminhos da tradução, mas tive a sorte de ter como meu primeiro livro esse texto voltado à literatura infantil. Falo em sorte, porque é um gênero muito recompensador: a resposta dos leitores, crianças e adultos, é muito mais rico e espontâneo. 


Quando você travou o primeiro contato com o mundo da palavra escrita?


Minha família costumava me presentear com livros desde os sete anos. Meu primeiro livro foi "O Príncipe e o Pobre", de Mark Twain, presente de um tio a quem agradeço ao final de "Por que o Elvis não latiu?". Mas devo muito, em verdade, à escola em que recebi meu letramento. Cresci em um subúrbio pobre e afastado do Rio de Janeiro, que funcionava como uma cidadezinha do interior. Nele, tive o privilégio de estudar em uma daquelas pequenas escolas particulares, mantidas por uma mesma família, típicas do subúrbio carioca à época. Era uma escola pequena, na qual quase todos os professores eram irmãos do diretor, a dona da cantina era cunhada, a inspetora de pátio também... Funcionava como uma grande família, e tinha turmas pequenas, uma turma por série, não mais que vinte alunos por turma. Em um ambiente como esse, não havia espaço para bullying, competição ou anonimato, e éramos facilmente conquistados para o saber. Na biblioteca minúscula daquela escola foi que construí boa parte da minha cultura literária de menino. Ali conheci Monteiro Lobato em uma velha coleção completa de seu "Sítio do Picapau Amarelo". Por isso, olho com tristeza e profunda compreensão a luta dos meus colegas professores em formar novos leitores nos dias de hoje, em turmas enormes e com tempo escasso, tendo que se dividir entre duas, três escolas diferentes e ainda enfrentar a cobrança de pais que nunca foram exemplo de leitores para os seus filhos...

Seu trabalho como autor infantil parece ser bastante calcado nas relações familiares. Isso foi intencional ou algo que surgiu espontaneamente?

A família é o universo mais importante para a criança, seu laboratório seguro de experimentações, o local onde ela aprende o que é ser humano a partir dos exemplos dados por pais e responsáveis. Por isso, mais que pensar em seres encantados, animais que falam, soluções mágicas para os problemas, tomei a decisão como escritor de livros infantis de construir histórias mais realistas, mas nem por isso menos poéticas ou cuidadosas. Gosto de pensar em uma literatura infantil que nos ajude a formar seres humanos menos materialistas, que se preocupem com o outro, que saibam lidar com seus próprios sentimentos também. "Por que o Elvis não latiu?" é minha tentativa de ajudar pais e filhos a conversar francamente por uma das experiências mais duras - a perda de alguém que se ama, a morte, o luto, a saudade.

A dramaturgia tornou-me um observador mais curioso da alma humana. Minha mentora Graça Nunes fez com que eu passasse a prestar mais atenção no mundo ao meu redor, nas pessoas e suas atitudes, um farto material para o drama. E foi observando o que acontecia no meu núcleo familiar que surgiu a ideia de "Por que o Elvis não latiu?": o cãozinho dos avós de uma afilhada minha, um animalzinho que ela adorava, morreu de velhice; por não saber como lidar com a questão, os avós e os pais da menina resolveram mentir - disseram que o cão havia viajado para um sítio da família; meses depois, ao visitar o tal sítio, a menina perguntou logo ao chegar pelo cão, e eles disseram que ele tinha ido passear no sítio de um outro parente; lá no outro sítio, a cena repetiu-se... Observando o sofrimento de minha afilhada para entender o que havia acontecido de fato, entre tantas informações desencontradas, tive a ideia de escrever a história do menino que se vê na mesma situação - mas pensando em qual seria a melhor maneira de os adultos lidarem com a questão. É o medo dos adultos de enfrentarem a proximidade da morte que os faz pensar que as crianças não resistirão a esse fato da vida. Mas a verdade é sempre o melhor caminho, e é muito melhor para os pequenos aprenderem a lidar com a perda e o luto tendo ao seu redor um ambiente de afeto e compreensão que cercados de mentiras que mais dia, menos dia, revelam para ela adultos nos quais ela não pode confiar totalmente...   

Você é carioca, mas mora há muito tempo em Porto Alegre. Como ocorreu a escolha de morar aqui? Como foi se adaptar à cidade?


Estou em Porto Alegre desde 1999, e antes disso vivi em Rio Grande entre 1993 e 1996. A mudança para Porto Alegre foi uma feliz junção de compromissos de trabalho e do sonho de toda a família em morar na cidade. Minha esposa é santamariense e sempre quis viver na capital; eu apaixonei-me por Porto Alegre ainda na adolescência, lendo os poemas de um de meus poetas favoritos - Mario Quintana. Parece literatura, mas não é: quando nos mudamos para cá, alugamos um apartamento na Rua da Praia, em frente à Casa de Cultura Mario Quintana, sem que eu me desse conta que ali havia vivido meu querido poeta. Quando descobri a coincidência, e sobretudo quando visitei o quarto do poeta ali recriado, as lágrimas foram inevitáveis. Hoje, considero-me mais porto-alegrense que carioca, e já até perdi o sotaque de minha cidade natal. É claro que, quando regresso ao Rio de Janeiro, as lembranças de infância e juventude enchem-me de alegria e orgulho por minhas origens. Mas acabo sempre retornando a Porto Alegre com a certeza de que aqui é meu lugar.

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