segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mandarim via Quintana

Lin Yutang -- nascido num 10 de outubro do ano de 1895 -- foi um dos escritores chineses mais lidos e respeitados de sua época. Hoje, seu nome pode até não provocar o mesmo entusiasmo de antes, mas isso não é razão para esquecê-lo. A contribuição que ele deu à literatura mundial se dá tanto pelas traduções que realizou de textos clássicos chineses, quanto pelos ensaios que compilou ao longo da carreira.

Ensaios esses que foram lançados no Brasil com o título de A Importância de Viver e receberam tradução de um dos maiores poetas brasileiros: Mario Quintana.

Quintana chegou até mesmo a fazer referência ao escritor num de seus poemas, no seu conhecido tom de deboche:
Telegrama a Lin Yutang
Acabo de ver um negrinho comendo um ovo cozido.
Hein, Lin Yutang?
Uma interpretação do poema, segundo Gabriel Perissé, autor do artigo Mario Quintana tradutor, seria que "Quintana provoca (e de certo modo apoia) Lin Yutang, referindo-se ao negrinho brasileiro, sem filosofia oriental, mas entregue à felicidade do momento presente, destituído de qualquer preocupação metafísica com a galinha do futuro."

E, de fato, a obra  de Yutang lida exatamente com isso: como melhor desfrutar dos prazeres terrenos, tendo como base a tradição milenar da filosofia oriental. Você pode encontrar A Importância de Viver na Biblioteca Josué Guimarães -- e também ler dois trechos que selecionamos abaixo, retirados do blog do escritor Alexandre Soares Silva:
Muitas são as amenidades que se praticam na China. Cultivam-se cuidadosamente os gestos dos dedos, mãos e braços. (…) Os cultos mandarins de antanho faziam gestos extremamente lindos quando se aborreciam. (…) Também é lindo ouvir o discurso de um mandarim. Suas palavras surgem com bela cadência, e os tons cantantes do sotaque de Pequim têm um gracioso altibaixo musical. As sílabas se pronunciam com graça e lentamente e, no caso dos verdadeiros eruditos, a linguagem é recamada de jóias do estilo literário. E também deve ver-se como ri ou cospe um mandarim. É delicioso, na verdade. O ato de cuspir pratica-se geralmente em três compassos musicais; os dois primeiros são os sons de aspirar e limpar a garganta como preparativo do compasso final de cuspir, que se executa com rápida força; staccato depois de legato. Não me importam na realidade os germes que assim povoam o ar, se o ato de cuspir se realiza esteticamente. (…) O riso de um mandarim é também uma coisa regulada e artisticamente rítmica, com um toque de artifício e estilização, e rematada por um volume cada vez mais generoso, agradavelmente suavizado por umas barbas brancas, quando as há.

CONDIÇÕES HUMILHANTES PARA AS FLORES

(retirado do “P’ingshih”, livro sobre a forma de se arranjar flores, escrito no século XVI por Yüan Chunglang)

O senhor que recebe visitas constantemente.
Um servente estúpido que coloca ramos em demasia e transtorna a decoração.
Monges ordinários que falam zen.
Meninos cantores.
Cantigas de Yijang (Kiangsi)
Mulheres feias que colhem flores e adornam os cabelos com elas.
Discutir promoções e baixas oficiais.
Falsas expressões de amor.
Poemas escritos por cortesia.
A família que faz contas.
Escrever poemas consultando dicionários de rimas.
Livros em mau estado largados à toa.
Agentes de Fukien.
Pinturas apócrifas de Kiangsu.
Excrementos de rato.
Quando o vinho termina antes de começarem os jogos-de-vinho.
Um escrito sobre a mesa, com frases como “o purpúreo ar matinal” (comum nas loas imperiais).

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