quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"Eu sou Bob Dylan"

Com apenas 17 anos, Ismael Caneppele saiu de Lajeado, uma cidade de cultura alemã com um pouco mais de 70 mil habitantes, para se aventurar em São Paulo, a metrópole de quase 20 milhões de pessoas. Em entrevista ao Correio Braziliense no ano passado, Ismael  faz uma análise da sociedade conservadora em que viviva no interior do Rio Grande do Sul, com tradições arcaicas e equívocas que, apesar de aparentarem fraternidade e amor entre os vizinhos, escondia um grande policiamento. "Só pude falar sobre isso depois que passei uns 10 anos fora e, de longe, consegui ver o que tinha de bom”, afirmou.

Essa experiência inspirou o livro Os famosos e os duendes da morte, segunda obra do escritor de apenas 30 anos, que ganhou uma versão para o cinema, com direção de Esmir Filho. Em entrevista à CLL, Ismael conta como a literatura preencheu sua vida e comenta a experiência de ser roterista.

CLL - Em que momento tu decidiste te dedicar à literatura?
Ismael - Mais do que me dedicar à literatura, me dedico a dar o meu testemunho sobre a realidade em que vivo. Seja trabalhando como ator, seja como escritor, seja como músico, o que me instiga é trazer o meu depoimento sobre o mundo. Em uma época onde as opiniões são tímidas, onde os valores de transgressão são tão pouco estimulados, sinto que a função do artista nunca foi tão importante. São raros aqueles que tem algo importante e visceral a ser dito. Algo que transcenda o simplesmente contar uma história. Decidi me dedicar mais a fundo ao ofício de artista quando passei a sentir falta de uma arte que falasse diretamente para mim e por mim. Quando me senti sozinho e vazio de ecos, passei a escrever os livros que gostaria de ler ou de ter lido. Assim como hoje escrevo as canções que gostaria de escutar ou de ter escutado. Sempre que presencio a ignorancia humana sinto que dedicar-se a criar pensamento e a estimular discussão é a minha função como cidadão. Por ter nascido em uma sociedade extremamente conservadora e preconceituosa, senti desde cedo a necessidade de encontrar uma voz que ousasse romper com esse incômodo silêncio. Acredito que um artista nasce artista e por isso é difícil especificar o momento em que se decide começar a sê-lo. Nunca levei a sério a escola, meus professores eram, com raras excessões, seres humanos detestáveis, mas me dedicava com afinco aos trabalhos textuais propostos em aula. Era ali que minha voz poderia ser ouvida. Sempre me indignou o silêncio imposto aos fracos e, por isso, sempre que escrevo eu enfraqueço para falar pelos que não tem voz.
 

CLL - O que tem de ti em Os famosos e os duendes da morte?
Ismael - Todas as palavras do livro nasceram de mim. Eu sou Os Famosos e os Duendes da Morte em todas as linhas. Em cada virgula. Eu sou o garoto sem nome, procurando uma saída. Eu sou Julian, atormentando os que decidiram ficar. Eu sou Jingle Jangle, transformando-me em pixels para não morrer. Eu sou Bob Dylan, polo de atração para longe, trovador que instiga tomar a estrada. Eu sou a ponte que separa idades. Eu sou as plantações que dividem cidades.
 

CLL - O que pensaste quando te propuseram a adaptação para o cinema?
Ismael - Pensei muitas coisas, mas sempre fiz questão de acabar com a idéia de ‘adaptação’. Por estar dialogando com um dos mais instigantes artistas de minha geração, Esmir Filho, pude, junto com ele, pensar em Os Famosos e Os Duendes da Morte como um diálogo, um movimento, um manifesto. Um eterno processo de roubo entre eu e Esmir. Sempre fiz questão de colocar em dúvida a minha obra. Sempre procurei instigar o roteiro para que ele mais do que retratar o livro, fosse um diálogo com o livro. Por isso não existe essa bobagem de ler o livro ou ver o filme. Filme e livro dialogam. São dois lados de uma mesma vivência. O livro foi lançado quando o filme já estava concluído, então posso dizer que eu adaptei o filme para o livro. Como disse, esse processo de roubo não pode ser especificado quando se cria coletivamente uma obra. Quando o livro ainda está em processo junto com o filme. Mas devo confessar que a primeira coisa que pensei quando vi que minhas palavras contaminariam as telas foi no tamanho do público com o qual estaria dialogando.


CLL - Tu achas que uma adaptação consegue manter a essência da obra?
Ismael - Todo o processo de adaptação é um processo de desterritorialização. É preciso desterritorializar as palavras. Criar um novo espaço. Um outro tempo. Cinema e literatura são tão distantes e me parece um tanto ingenuo cobrar a manutenção de uma essência literária em um filme. Adaptar é transgredir. É roubar. É anarquizar sobre letras. Acho fascinante esse processo de desterritorialização. Quando um cineasta se propõe a adaptar um livro para as telas, já entende-se aí o início de um processo de incorporação de um outro em si. São duas essências que se misturam. Fluídos que se encontram para formar um terceiro rio. Manter a essência é menos importante do que fazer uma obra de arte visceral. Adaptar é roubar. Cabe ao escritor a esperteza de não ser pedra, de ser grama. De esgueirar-se para dentro da película. De estar perto do cineasta e de seduzi-lo para que consiga contaminar também a tela. Jamais entregaria um livro meu para um diretor que não me quisesse como co-autor do filme. Dialogar é muito mais importante do que permitir-se ser adaptado.

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