sexta-feira, 1 de julho de 2011

De Caio para Déa, com amor.

Durante as atividades do 6º Festival de Inverno, o Teatro Renascença receberá, na noite de 26 de julho, a presença de Déa Martins, palestrante da atividade Caio F.: 15 Anos Depois. No evento, Déa, que atualmente reside no Rio de Janeiro e atua como diretora de produção, produtora executiva, produtora de elenco e assistente de direção em teatro e filmes, falará sobre as lembranças de sua amizade com o saudoso escritor gaúcho. Dessa amizade, iniciada em Porto Alegre no final dos anos 80, resultaram, além de uma extensa correspondência, diversas crônicas e contos dedicados por Caio à amiga.

Em entrevista à CLL, Déa foi questionada sobre qual desses textos mais a teria marcado e por quê. De suas recordações, ela destacou a crônica As Nuvens, Como dizia já Baudelaire. Segundo ela, “nesta crônica sublinhamos o nosso encontro, como amigos, a nível etéreo mesmo.... coisas que só duas almas muito ligadas podem prover juntas”.

(...) Era um daqueles dias de ventania descabelada da primavera gaúcha, e Déa Martins me convidou para ver o pôr-do-sol na Ponta do Gasômetro, na beira do Guaíba, onde os Oxuns se encontram. Sentamos na grama, ficamos olhando o céu, o rio, o horizonte verde das ilhas. Provavelmente fumei um cigarro, Déa deve ter falado dos problemas de produção com os Paralamas do Sucesso, lembramos de nossa amiga Stella Miranda ou inventamos mais histórias sobre as irmãs Salete, Bebete e Janete. O que quero dizer é que não houve mesmo nada especialmente prévio. Nenhum aviso, nenhuma suspeita. “Aconteceu sem um sino pra tocar”, como no poema do príncipe Péricles Cavalcanti que Adriana Calcanhoto canta e outro dia me fez chorar de beleza. Ríamos muito, isso é sempre o melhor com Déa: ri-se sem parar. (...) De repente observei: certa nuvem não se mexia. Apenas uma. Parada, branca, enorme, eu olhei desconfiado. E tinha uma forma inconfundível, qualquer criança veria. Desviei os olhos, falei sem parar, as outras nuvens continuavam a esfiapar-se. Aquela, não. Então, com muito cuidado eu disse: “Déa olha lá aquela nuvem.” Ela olhou. E disse: “Meu Deus, é um anjo.” Sem gritaria, ficamos olhando a nuvem-anjo. Ninguém mais olhava para ela embora, apesar de discreta, fosse um escândalo. (...) E assim foi, até que o Sol sumiu, o azul- marinho veio vindo das bandas dos Moinhos de Vento, apareceu a conjunção Vênus-Júpiter em Escorpião. A nuvem? Continuava lá, imóvel. E sozinha. O vento era tanto que todas as outras tinham desaparecido, sopradas para Tramandaí, Buenos Aires, Montevidéu. Só restava ela, a nuvem-anjo, abençoando os últimos raios dourados. Começou a esfiapar-se também apenas quando levantamos para ir embora.

A partir do texto, escrito em dezembro de 1994 e publicado em 2006 no livro Pequenas Epifanias (Agir, 208 páginas, R$ 40,90), podemos compreender um pouco da força emocionante dessa ligação, então marcada entre ambos para a eternidade.


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