sexta-feira, 17 de junho de 2011

Marcia Tiburi fala sobre seu novo ensaio, Olho de Vidro

A filósofa, artista-plástica e escritora Marcia Tiburi, uma das grandes atrações do Festival de Inverno deste ano, acaba de lançar Olho de Vidro - A Televisão e o Estado de Exceção da Imagem, um ensaio sobre filosofia e televisão. O livro foi escrito enquanto a autora participava do programa Saia Justa, do GNT, onde pode analisar este veículo sob uma ótica diferente - a de quem faz.

Marcia é professora do programa de pós-graduação em Arte, Educação e História da Cultura da Universidade Makenzie e colunista da Revista Cult. Publicou mais de dez livros entre ensaios e romances, como Filosofia em Comum, para Ler-junto (Record, 188 páginas, R$ 29,90), Magnólia (Bertrand Brasil, 256 páginas, R$ 35,00), que foi finalista do Jabuti, e A Mulher de Costas (Bertrand Brasil, 160 páginas, R$ 29,00)

CLL - O que significa a metáfora "olho de vidro"?

Marcia Tiburi - Escrevi este livro enquanto trabalhava na TV. Não assisto televisão, mas quando fui para o outro lado comecei a questionar o seu papel e como ela atua subjetivamente – as pessoas vêem, mas no fundo não vêem. A TV ilude o telespectador. Usamos este olho de vidro, que é a tela, como se fosse uma prótese, uma peça que imita o olho humano. Será que vemos o mundo com nossos próprios olhos ou com essa prótese?

CLL - Mas sendo a TV, como os outros meios de comunicação, muitas vezes a única alternativa para ter contato com o mundo, poderíamos condenar a utilização dessa prótese?

Marcia - É difícil fazer um julgamento moral, ela é muito diversificada. A TV é um objeto de uso doméstico que vem mexer com a capacidade das pessoas de ver as coisas. Se torna prejudicial ou não a partir da maneira como ela apresenta os seus conteúdos. A proposta do livro é fazer com que as pessoas questionem o que assistem e percebam em que experiências estão envolvidas - oferecê-las um conhecimento. O que é transmitido pela TV é produzido à distância, por desconhecidos. Quero que os telespectadores se perguntem: será que isso tem a ver comigo?

CLL - Por que tu não assistes televisão?

Marcia - Nunca tive muito tempo pra isso e nem gosto de muito barulho. Quando comecei a fazer TV passei a me perguntar: o que estou fazendo aqui? Aí fui estudar para ver o que tudo aquilo significava (que é o que os filósofos fazem). Li vários teóricos, fui buscar conhecimento na sociologia, na antropologia e escrevi Olho de Vidro que é primeiramente reflexivo, mas acaba sendo prático também, já que o que você lê reflete no seu modo de agir. Como menciono no livro, me vejo como uma telespectadora selvagem, pois apesar de não assistir em casa, em todos os lugares aonde vou - restaurantes, academia, aeroporto - tem uma televisão ligada. Ela impera como uma lei: se você quiser desligar uma televisão em um lugar público, não tem permissão, e, ao mesmo tempo, não é possível que você desligue seus olhos e ouvidos.

CLL - A filosofia tem espaço na televisão?

Marcia - A televisão tem espaço para tudo, ao mesmo tempo que não tem, já que a produção depende de algumas pessoas que determinam o que vai e o que não vai ser transmitido. A internet tem espaço para produções que seriam também de televisão, mas, assim como a leitura, ainda é uma linguagem não acessível para todos. O que defendo é que a televisão precisa ser democratizada. Escrevi o livro pra isso, promover a democratização dessa linguagem.


Olho de Vidro - A Televisão e o Estado de Exceção da Imagem
Marcia Tiburi
Editora Record
352 páginas
R$ 42,90

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