quarta-feira, 15 de junho de 2011

Literatura para além da obrigação

Com a publicação da coletânea de poemas A Educação Pela Pedra (Alfaguara/Objetiva, 296 páginas, R$ 43,90), em 1966, João Cabral de Melo Neto (1920-1999) inaugurou uma nova forma de fazer poesia no Brasil, com versos que, como o próprio nome sugere, remetem à secura, à aridez da pedra, à semelhança da secura das terras pernambucanas onde nasceu o autor. Dessa forma, os versos que compõem a obra vão tratar de temas caros ao poeta, como sua terra e sua gente, os engenhos de açúcar, os rios e o mar.

O mar e o canavial

O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

João Cabral, que desprezava o sentimentalismo, comparava o fazer poético a um cálculo matemático; exato, milimétrico, em que cada palavra deveria ser pesada e escolhida a fim de que, no papel, nada sobrasse ou faltasse, tal como nos versos do poema Catar Feijão:

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.



Opondo-se à ideia de que a poesia surge da paixão e do descontrole, João Cabral impunha à construção de suas obras um rigor e um método quase arquitetônico. Nas palavras do ator, “antes faço o plano do livro, decido o número de poemas, o tamanho, os temas. Crio a forma. Depois encho”. Para Cabral, portanto, os poemas deveriam ser trabalhados de forma rigorosa e sistemática, a fim de obterem a consistência e a resistência de uma pedra.

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

*

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

No fim das contas, e como resultado de um trabalho magistral na construção de imagens e na conferência de voz e vida a coisas inanimadas ou ideias abstratas, o poeta não consegue escapar de produzir, em seus leitores, a emoção da qual tanto procurou escapar.

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