quarta-feira, 8 de junho de 2011

Literatura para além da obrigação

Álvaro de Campos pode ser interpretado como uma das personalidades literárias – ou heterônimos - de Fernando Pessoa (1888 - 1935), o maior nome da poesia moderna portuguesa. A questão dos heterônimos encontra-se ligada a algumas das questões centrais da obra de Pessoa, tais como a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade (ou a falta dela), a noção de realidade e a estranheza da existência. Os heterônimos são portanto individualidades distintas da do autor, que criou para cada um deles uma biografia e até um mapa astral completo. Dentre os vários heterônimos destacam-se: Alberto Caeiro, o mestre, Ricardo Reis, o clássico, e Álvaro de Campos, o modernista.


Álvaro de Campos, conforme Pessoa, nasceu em Tavira, em 1890. Depois de uma educação vulgar de liceu, formou-se em engenharia mecânica e naval na Escócia e posteriormente fez uma viagem ao Oriente, da qual resultou o poema Opiário. Retornando de viagem, viveu em Lisboa sem exercer sua profissão, mas sim dedicando-se à literatura e intervindo em polêmicas literárias e políticas. Entre suas polêmicas estaria, inclusive, suas intervenções no namoro entre Fernando Pessoa e Ofélia, por meio de frases suas inseridas nas cartas trocadas pelo casal. Deste desagrado de Álvaro pelo romance de Pessoa, nasceria o poema Todas as cartas de amor são ridículas.


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

A trajetória poética de Álvaro de Campos está compreendida em três fases. A primeira, da morbidez e do torpor, é a fase do Opiário (oferecido a Mário de Sá-Carneiro e escrito enquanto navegava pelo Canal do Suez, em março de 1914). A segunda fase, mais mecanicista, é onde o Futurismo italiano mais transparece, com a exaltação da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva e do progresso, de que o poema Ode Triunfal é um dos melhores exemplos. Já a terceira fase é a do sono e do cansaço, do tédio e do desencanto pela vida, como se pode perceber nos poemas Lisbon Revisited (1923), Poema em Linha Reta, Tabacaria e Aniversário, que apresentam como características, o inconformismo, a consciência da fragilidade humana, o desprezo ao suposto mito do heroísmo e o enternecimento memorialista.


Imagens do livro Fernando Pessoa - Coração de Ninguém (Fundação Calouste Gulbenkian, 136 páginas, esgotado)

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