quinta-feira, 14 de abril de 2011

Seduzidos por um Velho Safado

Considerado por Sartre como o melhor poeta da América, o velho Hank ou, Henry Charles Bukowski Jr., nasceu em Andernach, Alemanha, em 16 de agosto de 1920, mudando-se com a família para os Estados Unidos aos três anos e criando-se em meio à pobreza de Los Angeles, onde morou por quase toda sua vida.

Erroneamente associado à Geração Beat, pela temática e estilo originais ao falar sobre uma realidade à margem da sociedade comum, sua obra na verdade trata de temas simples e cotidianos, carregados com as mais pesadas e cruas tintas autobiográficas.

E para falar mais sobre este gigante, ninguém melhor do que o músico, escritor e professor Pedro Gonzaga, que traduziu alguns dos livros mais conhecidos de Bukowski, como O Amor é um Cão dos Diabos (L&PM, 304 ps., R$15,00) e Misto Quente (320 ps., 19,50).

Segundo Pedro Gonzaga, o maior problema em traduzir Bukowski está no fato de o inglês ser uma língua mais seca, onde funciona bem a construção de imagens com poucas palavras, como acontece com o estilo cru e cortante do velho Hank; Já no português isso é mais complicado de se fazer originalmente, correndo-se o risco de resultar em um texto mal escrito. De qualquer forma, toda a genialidade de poemas como O Estouro, Pássaro Azul e Agora, se você tivesse que ensinar escrita criativa, ele perguntou, o que você lhes diria? parecem traduzir perfeitamente o caráter universal de uma obra vasta e ainda incompletamente traduzida para nossa língua materna.

Para o leitor que ainda não conhece a obra de Bukowski, Pedro Gonzaga recomenda que procure ultrapassar a fama de pornográfico e marginal que circunda tanto autor quanto obra, para que ambos não sejam subestimados. Uma vez superado o folclore pessoal criado em torno de sua figura, percebe-se que nas histórias, geralmente autobiográficas e que falam de sexo, amores loucos, drogas e bebedeiras, acaba sobressaindo-se um olhar fino sobre a América que deu errado.

Além disto, o fato de o autor ter emprestado sua voz a personagens tipicamente marginalizados, como prostitutas, mendigos e apostadores, demonstra a essência e a sensibilidade de um escritor que como poucos soube retratar a realidade do sonho americano fracassado, sem tabus ou qualquer limitação moral ou estética. Tudo para tornar todo o espaço entre os poemas e os contos um pouco mais tolerável.

“Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos dos pés rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o palhaço das trevas. É engraçado. Mais uma linha”... Trecho de O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram conta do Navio. (L&PM, 160 ps., R$ 14,00)


E para aqueles que ficaram curiosos sobre a obra de um dos velhos cães que brigavam tão bem, como Hemingway, Céline e Dostoiévski, Pedro Gonzaga sugere como primeira leitura os contos de Crônica de um Amor Louco (L&PM, 320 ps., R$ 18,50).

Recomendação mais que imperdível.

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