quinta-feira, 3 de março de 2011

A literatura na avenida!

Literatura e carnaval... Combinam?

Aqui na CLL temos um empate entre aqueles que adoram a maior festa popular do país e aqueles que não suportam nem 10min das músicas características desse período do ano.

Mas uma coisa podemos afirmar: as escolas de samba adoram levar a literatura para avenida!
Fazendo uma breve pesquisa sobre o tema, percebemos que os autores, suas obras e seus personagens são enredos decorrentes no carnaval.


A Acadêmicos do Salgueiro foi a primeira escola de que se tem registro a levar a literatura para a avenida. O enredo Navio Negreiro foi o primeiro da história do carnaval carioca a colocar negros em destaque, tendo como tema o poema homônimo de Castro Alves.
“[...]
Castro Alves, que também se inspirou
E em versos retratou
O navio onde os negros
Amontoados e acorrentados
Em cativeiro no porão da embarcação,
Com a alma em farrapo de tanto mau trato,
Vinham para a escravidão.
[...]”

Em 1963, a Beija-Flor de Nilópolis apresentou o enredo Peri e Ceci, personagens principais de O Guarani, romance de José de Alencar. Até hoje, considerado por muitos, o maior samba de todos os tempos da agremiação.
“[...]
Viemos apresentar
De José de Alencar
Esta obra-prima e fabulosa
Com cenas heróicas e amorosas
De um índio guarani
Peri que só pensava em existir
Vivendo para Ceci
[...]”

Três anos mais tarde, uma das escolas de samba mais tradicionais do país, a Portela teve como enredo um livro de Manoel Antônio de Almeida. Memórias de um Sargento de Milícias deu o título de campeã do carnaval carioca à Portela, naquele ano de 1966.
“[...]
Personagem central da história
Que contamos neste carnaval
[...]
Nosso herói outra vez se apaixonou
Amando com sua viola a mulata Violinha
Essa singela modinha cantou”



Já em 1967, a Estação Primeira de Mangueira levou Monteiro Lobato para a avenida. O Mundo Encantado de Monteiro Lobato foi o enredo que contou e cantou a história e a obra desse autor. A magia criada por Lobato deu à escola o título do carnaval daquele ano.

“[...]
Glória a este grande sonhador
Que o mundo inteiro deslumbrou
Com suas obras imortais
Vejam quanta riqueza exuberante
Na escritura emocionante
Com seus contos triunfais
Com seus personagens fascinantes
Nas histórias tão vibrantes
Da literatura infantil
[...]”


Em 1975, a Portela leva, novamente, uma obra clássica da literatura brasileira para a avenida. A obra Macunaíma (Macunaíma, Herói de nossa Gente), publicada por Mário de Andrade em 1928, foi cantada e seu samba enredo foi o vencedor do Prêmio Estandarte de Ouro daquele ano.

“[...]

Macunaíma fascinou
E ao luar se fez poema
Mas ao filho encarnado
Toda maldição legou
Macunaíma, índio branco, catimbeiro
Negro sonso, feiticeiro
Mata a cobra e dá um nó
[...]”

Também as escolas de samba de São Paulo já homenagearam autores na avenida. Em 1988, a Vai-Vai tinha como enredo Amado Jorge, a História de uma Raça Brasileira. A vida e a obra do escritor baiano deu o título à comunidade do bairro Bixiga.
“[...]
Jorge Amado
Mestre na literatura
Fez da epopéia de um povo
A sua arte em romance de ternura
Olha a folha da mangueira
Aê Bahia
Quando venta cai no chão
Aê Bahia
[...]”


Em 2005, a escola carioca Imperatriz Leopoldinense homenageou aos 200 anos de nascimento do escritor dinamarquês de histórias infantis, Hans Christian Andersen. Com o enredo Uma Delirante Confusão Fabulística, levou o mundo infantil para a avenida homenageando também o escritor brasileiro Monteiro Lobato, com alas e um carro sobre o Sítio do Picapau Amarelo.
“[...]
Era uma vez...
Em um mundo encantado, se prepare pra sonhar...
Contos de fadas, rainhas e reis
Roupas que o povo não pode enxergar
Os sapatinhos dançando sozinhos
Um rouxinol a cantar
Sereia menina, a bailarina...
Universo criado por um sonhador
E o menino venceu a pobreza
E fez da arte a linda princesa
Com quem viveu grande amor
[...]
A turma do sítio apronta
A imperatriz faz de conta
Emília cantando assim:
Vem viajar nessa história
É só dizer pirlimpimpim”


A Mocidade Independente de Padre Miguel homenageou o centenário da morte do escritor Machado de Assis (2009) e, posteriormente, incluiu uma homenagem a Guimarães Rosa no mesmo enredo, Clube Literário - Machado de Assis e Guimarães Rosa... Estrelas em poesia!.

“[...]
Machado de Assis que fez da vida sua inspiração
um literato iluminado
As obras, um destino à superação
nos olhos da arte reflete o legado
do gênio imortal do bruxo amado
que deu ao jornal um tom verdadeiro
apaixonado pelo Rio de Janeiro
[...]
O vento traz rosa de Minas
rosas do mundo pra te encantar
palavra que tocam a alma
fascinam e têm poder de curar
pelas veredas do sertão
a fé, o povo em oração”


No ano passado, o Salgueiro levou o livro para a Marquês de Sapucaí. Contou sua história, desde a da Antiguidade até os tempos modernos, com o enredo Histórias sem fim, apresentando na avenida Harry Potter, Emília, a barata de Kafka e outros personagens da literatura mundial.
“Sonhei... no infinito das histórias
Iluminando a memória, me encantei
Brilhou... realidade e fantasia
Como nunca imaginei
Na arte do saber um novo amanhecer
Divina criação, primeira impressão
O livro sagrado da vida
Virtude pra eternidade
A leitura estimulando
A mente da humanidade
[...]
Academia do samba é Salgueiro
No livro do meu carnaval”


As escolas de samba de Porto Alegre também já levaram a literatura para a avenida. Em 1981, a Estado Maior da Restinga, ganhou o terceiro lugar com o enredo De repente, Vinícius na Tinga. Em 95, Monteiro Lobato foi para a avenida e deu o título para a Imperadores do Samba e, em 2004, a vida e a obra de Luiz Coronel foi o enredo da União da Vila do IAPI.


Parece ficar a cargo de cada um a resposta definitiva quanto à combinação de literatura e carnaval, mas que muitos carnavalescos já se inspiraram muito em autores, suas obras e seus personagens, NÃO HÁ DÚVIDA!

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