segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Texto, ou... A Vida em Azul

Quando a mídia e o meio cultural insistentemente o nomeavam com a alcunha de Imortal, em sua natural humildade e simpatia de médico sanitarista, ele pedia que o chamassem de Mico. Moacyr Scliar era o doutor, o professor, autor de livros e artigos. Mico era o gurizinho do Bom Fim.

Em sua auto biografia O Texto, ou: A Vida, Scliar comenta que esta duplicidade tinha suas vantagens, “cada vez que começo a ficar com o ego inflado, cada vez que fico muito Moacyr, penso no Mico e volto à minha dimensão verdadeira."

Dono de uma simpatia e de um carisma generalizados, Moacyr Jaime Scliar era considerado uma pessoa que gostava de gostar de pessoas, dedicando-se tanto à família quanto à sociedade da qual fazia parte. Como médico de saúde pública, a proximidade com a dor e o sofrimento humanos não apenas lhe concederam uma reflexão e compreensão maiores sobre a vida e a morte, como também serviram de mote para obras ficcionais como A Majestade do Xingu, e não-ficcionais, como A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura.

Apaixonado pelo fazer literário, escrevia por prazer e por necessidade, não importando onde estivesse. Em casa, no aeroporto ou em pleno vôo, Scliar era capaz de abstrair da realidade ao entorno, concentrando-se apenas em transferir para a tela em branco a tradução automática dos seus pensamentos em palavras. Em entrevista ao Clic RBS, em março de 2007, Scliar comentou que “se o escritor não tem prazer escrevendo, o leitor também não terá. Aquilo tem de corresponder a uma necessidade tua que, realizada, se expressa nesse prazer, o prazer do texto, de que fala Roland Barthes”. Deste romance de uma vida inteira com as palavras, resultaram mais de 70 livros, além de artigos e das colunas semanais que escrevia como colaborador dos jornais Zero Hora e Folha de S. Paulo.

Como integrante de uma geração que precisou lutar pelo direito à liberdade de expressão, suas obras não podiam deixar de conter as tintas da denúncia política, ainda que disfarçadamente, por meio da imaginação, sob a influência de autores como Franz Kafka ou Gabriel García Márquez, ou ainda por meio da ironia inteligente, aliada ao famoso humor judaico.

Representante notável de sua cidade e de seu estado, assim como de sua origem e antepassados, Moacyr Scliar deixa, além de uma vasta obra para o deleite de seus leitores, uma tão maior saudade no coração daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo e de participar, de alguma forma, de sua vida. Saudade do ser humano amigo e solidário, que tinha sempre uma palavra de carinho e incentivo para todos. Saudade e gratidão, por sua vida e pelo grande presente que foi sua obra para todos nós.


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