terça-feira, 25 de janeiro de 2011

"Não é intenção do poeta escrever difícil"

Em Alguma Parte Alguma, livro lançado em setembro de 2010, é o trabalho mais recente do poeta Ferreira Gullar. A obra reúne poemas inéditos produzidos desde 1999 - quando Gullar lançou Muitas Vozes - e marca também os 80 anos de idade completados pelo poeta maranhense (aniversário comemorado aqui no blog).
Provavelmente o maior poeta vivo em atividade no país, Gullar concedeu esta entrevista por e-mail ao repórter do blog do Poemas no Ônibus Diego Petrarca. Na conversa, Gullar fala sobre as relações entre poesia e artes plásticas, além de sua militância de mais de cinco décadas na vida cultural e política do Brasil. Morando no Rio, Gullar, ao ser convidado a fazer uma visita a Porto Alegre, respondeu com bom humor: "Mas eu não ando de
avião”. O fato é que a poesia de Ferreira Gullar já voa suficientemente fora da asa e, como ele próprio reconhece, algumas frases suas se tornaram muito conhecidas e até já circulam como se fossem criação anônima. Duas, por exemplo: "Não quero ter razão, quero ser feliz" e "A arte existe porque a vida não basta".
A seguir, leia trechos da entrevista, inclusive com uma simpática referência de Gullar ao projeto Poemas no Ônibus e no Trem, da Secretaria Municipal da Cultura.


CLL - Em seu novo livro Em Alguma Parte Alguma, existe uma nova abordagem poética ou a inauguração de um novo tema?
Gullar - Nesse livro, há temas que o definem e o distinguem: um desses temas é o universo; outro, a consciência da morte e outro ainda, a relação entre ordem e desordem. Mas não foram temas que escolhi a priori para escrever os poemas. Na verdade, eles surgiram durante os anos em que os escrevi e, surgidos, passei a explorá-los.

CLL - Existe algum pré-requisito de linguagem para um texto autorizar-se poesia? O estranhamento? O sentido da contrariedade?
Gullar - A linguagem da poesia pode às vezes oferecer dificuldade para o leitor comum mas não é intenção do poeta escrever difícil. A dificuldade nasce da necessidade de ultrapassar a expressão prosaica e alcançar o nível da poesia.

CLL - O senhor conhece o projeto dos Poemas no Ônibus e no Trem, da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre. Se sim, o que acha do projeto?
Gullar - Conheço, sim. Acho uma excelente idéia, porque dá oportunidade às pessoas de entrarem em contato com a poesia. Esse contato pode levá-las a se tornarem leitoras de poesia.

CLL - O senhor tem alguma disciplina determinada na hora de escrever?
Gullar - Não, não tenho método para escrever poesia e não creio que isso seja possível, a não ser, em alguns poetas, ao nível da técnica. No meu caso, o poema nasce do espanto, do inesperado e eu o invento, ali, a partir da descoberta inesperada. Certamente, tenho um modo próprio de estruturar o poema e isso resultou de uma longa e diversificada experiência. Sem o domínio técnico da expressão, não há expressão poética.

CLL - Poesia pode ser encarada como uma profissão?
Gullar - Fazer poesia não é profissão, não pode ser.

Leia mais no blog do Poemas do Ônibus e no Trem.

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