sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Barulho na Biblioteca: Claudia Tajes e Cíntia Moscovich estreiam o "Mais que Prosa"

Embalado por descontraída conversa entre Claudia Tajes e Cíntia Moscovich, um grupo de aproximadamente 60 pessoas acompanhou ontem a estreia do Mais que Prosa, na Biblioteca Josué Guimarães.

E que estreia! Completamente à vontade, as autoras começaram falando sobre a origem dos apelidos "feia" e "gorda", herdados de viagens em comum pelo Brasil. Na memória comum de Claudia e Cíntia, assim como em seus livros, o descaminho e o desastre se prestam ao riso.

Claudia revelou que "A vida sexual da mulher feia" era para ser um conto em uma coletânea sobre personagens pitorescos relacionados a sexo. Foi Cíntia quem a convenceu de que seu tema renderia um livro inteiro. Perguntada pelo público sobre conteúdo autobiográfico no livro, Claudia foi direta: "Ali, tudo é autobiográfico". No entanto, a autora concorda que a feia das páginas pertence à ficção, não sendo a réplica de como ela se vê na realidade. Cíntia explica: "A Claudinha é muito tímida, acho que é isso que dá o tom deste 'complexo de rejeição' que aparece nos livros dela".


Estimuladas pelo público a falar sobre os títulos de seus livros, as escritoras dissertaram sobre como aparecem os nomes - geralmente, depois de já escritas as obras. No caso de "Por que sou gorda, mamãe?", o título veio como sugestão de Luiz Antonio de Assis Brasil. Receosa com a proximidade do apelo da literatura de auto-ajuda, Cíntia foi em frente com a ousadia. Ambas as autoras sabiam que seus livros poderiam ser tomados pelo que não são, mas decidiram arcar com o risco e, naturalmente, fazer humor com as consequências. Ainda sobre títulos, Claudia revelou que considera "Dores, amores e assemelhados" o pior título de livro do mundo, afirmação que recebeu apaixonados apartes do público.

Ao refletir sobre processo criativo, Cíntia disse que um de seus principais passatempos mentais é bolar títulos de livro: "Já tenho um verdadeiro banco de títulos!". Ela não considera a madrugada um bom horário para escrever: "Há que se ter tranquilidade. Gosto da manhã", e acrescentou: "Tenho muitas ideias enquanto tomo banho ou faço xixi. Não há toda aquela tensão, a criatividade surge naturalmente. Quando estou sem ideias, vou tomar banho ou fazer xixi".


Sobre sua "outra profissão", Claudia Tajes ponderou: "Tudo bem ser médico e escritor, engenheiro e escritor, advogado e escritor... Mas pega mal ser publicitária e escritora. Estou até sofrendo bullying!", disse, lamentando o preconceito que há na publicidade com profissionais mais velhos. Claudia notou que as famílias não têm incentivado a leitura e, perguntada pelo público sobre a carência de boa crítica, emendou outra discussão: para ela, seus livros nem merecem uma crítica literária.

Cíntia aproveitou a deixa para refletir sobre o papel do humor na literatura: "O humor sempre foi o melhor recurso para se lidar com as tragédias humanas. Com o humor, tu tornas o outro igual a ti - ou mesmo rebaixas ele".

Em relato hiptonizante, Cíntia narrou uma visita ao campo de concentração de Auschwitz, em que viu comprovada a ideia de que o humor nos ajuda a enfrentar a desolação: "Chegamos a um alojamento em que havia uma fila de buracos no chão. Os prisioneiros sentavam-se ali, um de costas pro outro, e tinham 1min30s para urinar e defecar. Um oficial nazista controlava o tempo com um relojão. Esse oficial se incomodava com os risos dos judeus, que trocavam piadas e gozações em língua outra que não a alemã. Quando a União Soviética invadiu Auschwitz e os prisioneiros foram liberdados, descobriu-se o motivo da graça: eles chamavam o oficial nazista de 'Senhor da Merda'."

Quanto à formação de escritores, Cíntia, que frequentou a oficina de Assis Brasil, se considera uma exceção: ela não crê que todo participante sairá escritor de uma oficina - ainda assim, ela reconhece a importância e relevância desses cursos, que valem justamente pelas exceções que ajudam a lapidar. As duas autoras concordam que pode haver boa literatura na internet, e louvam a existência de concursos que estimulam o trabalho de escritores desconhecidos e a difusão de obras inéditas.


No final do encontro, Cíntia leu Claudia, Claudia leu Cíntia, e todos sorriram Cíntia e riram Claudia. Não poderia haver estreia mais bonita.



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O próximo Mais que Prosa está chegando: aguarde outra boa conversa para a última quinta-feira de outubro!

Um comentário:

  1. Muito bom o texto postado pela coordenaçao do livro. Deu para imaginar bem como foi este grandioso encontro a que, infelizmente, não pude comprarecer para abraçar as autoras. E o final não poderia ser mais inspirado.
    À espera da ultima quinta de outubro, envio um abraço às escritoras e à organização.
    Marcel Citro

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