segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Morre grande nome da literatura gaúcha

Não apenas a Coordenação do Livro e Literatura (CLL) recebeu como um golpe a notícia da morte de Paulo Bentancur, ocorrida nesse último domingo. A comunidade literária, sobretudo a gaúcha, lamenta a partida do escritor, crítico, editor e tradutor de 59 anos, nascido em Santana do Livramento, em 20 de agosto de 1957.



Paulo Bentancur foi Coordenador do Livro e Literatura nos anos de 2003 e 2004. Trabalhou de perto e incessantemente com a escrita, a edição e a organização de livros. Há um mês, ele se mudou para junto de Marta Aguiar, em Nilópolis, no Rio. Morreu do coração, ao lado de sua noiva.

Autor de grandes obras como Instruções para iludir relógios, Frio, Bodas de Osso e A solidão do Diabo, Paulo conquistou cinco Açorianos, o último deles pela edição de Três Pais, um projeto infanto-juvenil. Foi editor da Imprensa Oficial do RS (fundador da revista VOX XXI em 2000) e tradutor do espanhol, língua pela qual transitou regularmente em diferentes gêneros do seu trabalho.

Foi autor de 25 livros infanto-juvenis publicados por grandes editoras, como Bertrand Brasil, Saraiva, Grupo Positivo, Rigeel, Edelbra, entre outras. Tinha contos traduzidos e publicados na Argentina e na Itália. Suas críticas em jornais como Zero Hora, Estadão, Jornal do Brasil, Rascunho e outros discutiam sobre os grandes autores brasileiros e sul-americanos. Ele deixa duas filhas, Maria e Laura. Deixa também, felizmente, muitos livros.

A CLL fez uma seleção de poemas do autor e uma tradução feita por ele de um dos seus autores preferidos, Julio Cortázar.  


SAIO OU NÃO?


Imagens só ruídos
em ondas nos carregam,
não quero e quero ir.
Lá fora é longe e perto.
Distante, ainda estou dentro.
O trinco me condena.
A porta não espera,
tampouco me apressa,
e a noite, que se mostra
repleta de mulheres,
esconde todo o amor.

(em Bodas de Osso, Editora Bertrand Brasil)


AMPLITUDE


Ninguém ama um homem comum.
O terror da entrega é antigo.

Te quero tanto e disfarço.
Sou puro como a borra do café
e o pano de prato manchado.
Às vezes me gripo, me atraso.
Sei disfarçar o choro.

Ninguém ama um homem comum.
Fugiste quando eu me encolhi.
Queríamos o que o mundo podia,
e ele só podia nós dois.

(O tempo levava o amor
por sua mão já sem forças:
quatro dedos, pouco gosto.)

Um homem comum vê o tempo
arrastando-se em seu rosto.

Não quero prometer a rosa
que nem tu mesma encontraste.
Não quero salvar uma morta.
Quero que as nuvens convençam
a todos o que já sei:
sou um homem, não um rei.

Quem quiser um soberano,
terá de amar um séquito.
Quem aceitar-me sozinho,
encontrará este homem
que enxuga as tuas costas
e não diz uma palavra
seca e dura como o ouro
que mata os homens comuns.


APNEIA


Ai daquele que não sente nada
diante da morte, flor bruta contra a indiferença.
Ai daquele que não sente nada
Diante da vida, pedra em floração.
Ai daquele que não sente nada,
nada, nada, nada, nada.
Assim se afoga em tanto
e sua cinza é sua brasa.


ELA DISSE QUE NÃO SOU SÉRIO


Tudo porque o mundo
sério como uma gárgula,
grave como o mistério
imerso no coração do Minotauro,
ergueu-me pelo pescoço.
Eu não cumprira o prazo
de estar pronto, de completar
o percurso do vento, veloz
quase como a luz
que agora ela desliga.

Ela disse que sou o que não liga
para todas as mortes,
incluída a minha.
Sinto o peso da terra sobre meu corpo.


QUEM VÊ QUEM


Feita a travessia,
atraco o barco entre névoas.
Toda a esperada luz
é apenas treva
e avanço hesitante o caminho.

Onde andará, ela,
que parece habitar todo lugar
neste lugar de mil ninhos
onde ouso conquistar
um futuro, adaga a minha espera.

Ouço pio de corujas, ouço
sibilar de cobras, escuto
meu coração pulsando nos ouvidos
e me pergunto qual
desses castelos é o eleito.

Isso feito me aproximo de um.
A porta não é porta, vejo agora,
à frente dela o ar rarefeito se adensa:
um espelho!
Estou diante dele, desprotegido me vendo.

E ela atrás de mim.


INFÂNCIA COM SEDE


Livramento é como o Texas.
A pradaria, o deserto,
almas saudosas e rudes
e um céu que jamais ilude.

No sol do meio-dia caminhamos.
Há cinco horas a sede silenciosa
compreende tudo e não chora.
O suor de meu pai em gestos secos.

A mãe é uma aparição. Flutua
na poeira, nos pés pequenos. Ajuda
com a fé na procura de uma fonte.
Eu fui no Tororó, beber água

e não achei.


MINHA RÚSSIA


Chove há tantos dias em Porto Alegre. E o frio
É bem daquele tipo quando os ossos doem.
Mãos e pés sentem o nó das articulações.
As roupas necessárias se somam ao grosso casaco
E pesamos como o vento e a chuva lá fora.

Lá fora e aqui dentro. Porque a umidade invade tudo
E passamos a desejar uma cama e cobertores,
Tocando livros, amando online, substituindo
Os movimentos naturais por um lento caminhar,
Como o de um corcunda, como o de um velho de 90 anos.

Chove há tantos dias em Porto Alegre que as ruas marulham,
E é quase impossível andar pelas calçadas sem afogar os sapatos.
Os guarda-chuvas viram do avesso, tornam-se
A sucata socada pela tempestade.
Os óculos embaciam e se molham tanto que se perdem.

Nem parece que estamos no Brasil. E a palavra “trópico”
Soa irônica. Não olhamos o céu de chumbo e sua sombra
De dilúvio. Não olhamos sequer para os lados.
Todos se escondem em si mesmos. Todos se escondem
Uns dos outros.


LEITO


Flor que em ti brota todo dia
Colhida em minha boca já madura
Voraz engole o caule da procura
Ali onde eu juro que me escondo.

A mais fundura colheita, a tua
Carnívora pétala feita de ternura
Emaranhada entre lençóis, suores,
A mastigar o que me alimenta.
E quando me retiro, espesso fio
Leitoso como o teu, acompanhando-o,
Mistura-se num gosto dividido,
A azeitar um níveo óleo às nossas coxas.

O sono que se anuncia assim sono
Nos leva longe para aonde, em que era?
É a plena paz a interpretar o abandono.
Libertos do árduo preço dessa espera.

A busca do espasmo por dizer
Em suma o que é que afinal nós somos,
Encontrados nesse tão fundo prazer
De nos vermos como nossos próprios donos.


ESSE SILÊNCIO


Mergulho no silêncio mais profundo,
nado em suas águas de quietude
e nenhuma onda me sacode.
Até meu coração se aquieta
como se já não batesse
Como o coração de minha mãe morta
ou como a mulher que um dia me amou
e hoje não me ama e seu peito morno
dá calor agora a outro homem que fala
os inumeráveis sons a que me recuso.

Mergulho no aparente nada diante de tudo
e essa face de vazio esconde o túmulo de restos,
pole o metal dos dias vividos em glória.
Acolho com piedade os gritos sinceros
daqueles que ainda esperam tal auréola
ou daqueles que, a encontrando, explodem
aos pedaços, perdendo o que tinham de inteiro:
esse silêncio que me escuta, esse silêncio,
enfim um estado digno de um homem
que atravessou todas as palavras e ainda assim
o atingiu em cheio.


ENCARGO

Julio Cortázar

Não me dê trégua, não me perdoe nunca.
Fustiga-me o sangue, que cada coisa cruel seja tu que retornas.
Não me deixes dormir, não me dês paz!
Então ganharei meu reino,
nascerei pouco a pouco.
Não me percas como uma música fácil,
não sejas carícia nem toque de luva.
Corta-me como a um seixo, desespera-me.
Guarda o teu amor humano, o teu sorriso, teu cabelo. Entrega-os.
Vem a mim com a tua cólera seca de fósforos e de escamas.
Grita. Vomita-me areia na minha boca, quebra-me o maxilar.
Não me importa ignorar-te em pleno dia,
Saber que jogas o rosto para o sol e os outros homens.
Compartilha-os.

Eu te peço a cruel cerimônia do talho,
o que ninguém te pede: os espinhos
até o osso. Arranca-me esta cara infame,
obriga-me a gritar no fim o meu verdadeiro nome.

(tradução de Paulo Bentancur)



Fontes:
Literatura gaúcha perde um grande cara, por Luiz Gonzaga Lopes, no Livros A+. 
Paulo Bentancur, na Revista Biografia. 
Aos 59 anos, morre escritor gaúcho Paulo Bentancur, na Zero Hora. 

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