terça-feira, 12 de julho de 2016

Pablo Neruda, Ainda

Essa e outras obras do poeta podem ser
retiradas na Biblioteca Pública Municipal
Josué Guimarães
Aún é o título original da obra publicada um pouco antes da sua morte. Mas não é de morte que vamos ficar falando. É justamente hoje, dia 12 de julho, que se celebra o nascimento do poeta chileno (e universal) Pablo Neruda. Para não deixar passar em branco, resolvemos trazer aqui algumas linhas para pintar de verso um pouco dos posts do nosso blog. 

Subimos à Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães e buscamos este título que não é tão ecoado nas grandes livrarias e editoras, já pós-graduadas nas republicações do poeta. Ele conta com vinte e oito poemas que usam a palavra do título "como uma nota constante, como um refrão, ao longo do livro". Declara, à sua forma, amor às lembranças dos lugares da sua infância e juventude, descrevendo as figuras geográficas do Chile, viajando com o pai, maquinista de trem.

Com suas imagens poéticas originando-se no convívio familiar e transportando-se com ele através da geografia do próprio país, produziu aqui uma literatura da natureza, ao mesmo tempo inóspita e exuberante - atraente e violenta.

A CLL extraiu alguns fragmentos deste livro em homenagem ao 112º aniversário de nascimento dessa importante figura para o cenário da Literatura em todos os seus sentidos, ainda mais poético e geográfico.


III

Inverna, Araucânia, Lonquimaya!
Leviatana, Aquipélaga, Oceana!
Penso que o espanhol de sapatos roxos
montado na invasão como na náusea,
em seu cavalo como em uma onda,
o descobridor, desceu de sua Guatemala,
dos pastéis de milho cheirando a tumba,
daquele calor de parto que inunda as Antilhas,
para chegar aqui, de descalabro em derrota,
para perder a espada, o muro, a Santíssima,
e logo perder os pés e as pernas
e a alma.
Agora nestes 65 que faço
olhando para trás,
para cima,
para baixo
me pus a descobrir descobridores.
Passa Colombo com o primeiro colibri
(pássaro de pulseira), breve relâmpago,
passa Dom Pedro de Valdívia sem chapéu
e logo, de regresso, sem cabeça,
passa Pizarro entre outros homens tristes.
E também Dom Alonso, o claro Ercilla.


VI

Perdão se quando quero
contar minha vida
é terra o que conto.
Esta é a terra.
Cresce em teu sangue
e cresces.
Se se apaga em teu sangue
te apagas.


XV

Nós, os perecíveis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão, imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me.


XVII

Abaladora foi a noite de setembro.
Eu trazia na roupa
a tristeza do trem que me trazia
cruzando uma por uma as províncias:
eu era esse ser remoto
turbado pela fumaça do carvão
da locomotiva.
Eu não era.
Tive de encarar então a vida.
Minha poesia me incomunicava
e me agregava a todos.
Naquela noite
me coube declarar a Primavera.
A mim, pobre sombrio,
me fizeram desatar a vestimenta
da noite desnuda.
Tremi lendo ante duas mil orelhas desiguais
meu canto.
A noite ardeu
com todo o fogo escuro
multiplicando-se na cidade,
na urgência imperiosa do contato.
Morreu a solidão aquela vez
ou nasci eu de minha solidão?


XXI

Vivi na desordem de pátrias não nascidas,
em colônias que ainda não sabiam nascer,
com bandeiras inéditas que se ensanguentariam.
Vivi na fogueira de povos malferidos
comendo o pão estranho em meu padecimento.

*Ainda, de Pablo Neruda. 2ª Edição. Tradução de Olga Savary. Editora José Olympio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário