terça-feira, 9 de setembro de 2014

Gaúchos nas leituras da UFRGS: Lya Luft

Lya Luft, natural de Santa Cruz do Sul, escreve desde 1964 e como ela mesma identifica, sob um olhar “que observa o lado difícil, sombrio. A minha literatura nunca vai ser "aí casaram e foram felizes para sempre". Minha literatura sempre nasceu do conflito, da dificuldade, do isolamento.” E isso não é diferente n’As Parceiras, escrito em 1980 e hoje leitura obrigatória da UFRGS 2015.

As Parceiras conta, em uma semana, a história de uma família de mulheres, uma “família de perdedores” como a própria narradora apelida, e não apenas no sentido pejorativo, perdedoras no jogo da vida na busca por um sentido, perdedoras num jogo contra a lucidez onde todos, cada um à sua maneira, entram num abismo de fracassos emocionais, solidão, morte e tristeza.
Anelise, que narra toda história através de sua perspectiva, conta duas trajetórias: a de sua família, seca e torta, e a sua própria, fruto genuíno dessa linhagem. Ela busca no passado uma possível razão para sua infelicidade e seu fracasso emocional, e para isso retorna à região onde cresceu, conheceu seus medos, ânsias e vontades. Lembra de sua avó Catarina, que, abandonada pela mãe, foi obrigada a casar-se aos 14 anos com um homem que não poupava vigor nos rompantes violentos de estupros e terror, fazendo então ela criar para si um mundo alvo, infantil e vago dentro do sótão da casa; além de quatro filhas: Beatriz, ou Tia Beata, Dora, uma artista, Norma, mãe de Anelise, e por fim Sibila, concebida e parida no sótão, e retrato da fragilidade da família, anã e deficiente mental.

Junto com essa história e de como ela cresceu em meio à ela, Anelise conta seu caminho de tristeza e solidão. Perdeu sua melhor amiga quando pequena, na trágica queda de um penhasco, perdeu seus pais – que já eram ausentes e distantes – num acidente, ficou então refém de uma tia que queria doutrinar ela e sua irmã Vânia no que ela entendia como salvação pra tamanha treva da família. Teve uma paixão infantil pelo primo, que, embora adotado por Dora, também estava sob a sombra da solidão e do vazio. Até muito lutar, conheceu a paixão e então a frustração de quatro abortos e o nascimento do que chamaram de um filho “pouco mais que um vegetal” que morreu antes de completar um ano. Algo que foi o estopim para falir um casamento já frio e distante.
A história se desenrola com outros personagens também muito densos, como a irmã de Anelise, Vânia, que vestia uma vida de casamento feliz quando na verdade seu marido a traía; Tia Dora, que mergulhou numa vida artística, tentando fugir ou ignorar seus dramas internos; seu primo Otávio, paixão juvenil, que sempre teve a sexualidade questionada e casou-se com uma mulher que o subjugava; Tia Beata, que viúva ficou em casa lidando com toda a loucura e todos os ecos da casa da família. Assim cresce uma narrativa de pessoas feitas de vazio e incompreensão, personagens solitários, tristes e vagos revelando que mesmo quem aparentemente tinha uma tranqüilidade emocional ainda é inundado pelo fado da família, ainda tem a chaga de ser um perdedor e de flertar todo dia com a loucura.

As Parceiras está disponível no acervo da Biblioteca Municipal Josué Guimarães (Av. Erico Verissimo, 307)

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