quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Lexicário: Aurora Fornoni Bernardini & Ari Riboldi

 
     
O Lexicário de hoje entrevista dois grandes professores: Aurora Fornoni Bernardini e Ari Riboldi.

Professora titular da U.S.P., formada em Letras Anglo-Germânicas e Estudos Orientais, leciona Literatura Russa, Teoria Literária e Literatura Comparada em nível de pós-graduação. Dedica-se à ensaística e à tradução. Em 2006 publicou pela Martins Fontes Indícios Flutuantes -  ensaio e traduções de poemas  de Marina Tsvetáieva , recebendo o prêmio Paulo Ronai e o premio Jabuti de tradução. No mesmo ano recebeu o premio da APCA, juntamente com Homero Freitas de Andrade, pela tradução que realizou para a Cosac&Naify de O Exército de Cavalaria de Isaac Bábel. Recentemente traduziu A Estrutura do Conto de Magia de E. Meletínski para a Editora da Universidade Federal de Santa Catarina.Atualmente dedica-se à tradução de poesia.

CLL - De qual palavra da língua portuguesa tu mais gostas?
Aurora Fornoni Bernardini - "Cintila”

CLL - Qual palavra tu não gostas? Que te doa os ouvidos?

Aurora - "Carantonha".

CLL - E qual palavra tu achas que deveria ser resgatada? (no sentido de expressão antiga que deixou de ser usada publicamente)

AuroraMádido.  


 
Ari Riboldi, natural de Silva Jardim, Serafina Corrêa – RS, é filho dos agricultores. Reside em Porto Alegre, desde 1975. Formado em Letras e pós-graduado em Literatura Brasileira, é Técnico em Assuntos Educacionais do MEC e professor da rede pública e privada há mais de 30 anos. Professor concursado da Prefeitura de Porto Alegre, lecionou, em 1987, na Escola Municipal Liberato S. V. da Cunha e, por 18 anos, na EMEF Leocádia Felizardo Prestes. A partir de 2006, passou a trabalhar na Assessoria de Comunicação da Secretaria Municipal de Educação, onde também é revisor das publicações editadas pela SMED.

CLL - De qual palavra da língua portuguesa tu mais gostas?

Ari Riboldi - Na última flor do Lácio, a nossa Língua Portuguesa, um dos termos prediletos meus é ‘ósculo’ e seus derivados. Substantivo comum, sinônimo de beijo. Do latim “osculum”, boca pequena, a partir de “os”, “oris”, boca. Beijo que se davam os antigos cristãos em sinal de união e fraternidade; como sinal de amizade ou reconciliação.

O termo ‘beijo’ ficou banalizado. É o selinho, comum, sem sentido, sem alma, autômato. O ósculo faz a simbiose do rito, do ato formal e solene com o acréscimo do amor, da espontaneidade, do afeto, do carinho, da paixão. “E deixe-me oscular teu níveo peito, teus braços, tua boca de romã”, versos do poeta português Eugênio de Castro. O padre ou pastor autorizaria os noivos: “Agora os noivos podem se oscular”! A canção popular assim ficaria: “...depois que osculei você, nunca mais osculei ninguém...”  Enfim, ósculo é tudo do bom, perfeito, cheio de alma, de vida.


CLL - Qual palavra tu não gostas? Que te doa os ouvidos?

Ari - Uma das palavras que detesto é ‘escroto’. Soa mal ao ouvido. Saco musculocutâneo que contém os testículos e os epididimos. Apesar de pertencer à terminologia médica, a mim parece ter parentesco com esgoto. Saco escrotal dói ainda mais aos ouvidos. Por que não apenas saco? Será que estou sendo influenciado por aquela pela enrugada que caracteriza o escroto? Teria sido uma falta de capricho da natureza? Considerações à parte, “aguentar a palavra ‘escroto” é um saco!

 “Detesto também ‘ojeriza’. Tenho a impressão de que a palavra está incompleta.. Falta-lhe alguma letra ou sílaba. Além de ser difícil de ser pronunciada, a gente sempre fica na dúvida quanto à sua correta grafia. Ela dá nojo, repulsa, asco, rejeição, desprezo. Que ojeriza tenho dela!


CLL - E qual palavra tu achas que deveria ser resgatada? (no sentido de expressão antiga que deixou de ser usada publicamente)

Ari - Um dos vocábulos que gostaria que retornasse ao uso cotidiano é ‘busílis’. Em tempos mais antigos, diante de questão complicada ou problema insolucionável, afirmava-se: Eis aí o busílis! Foi sendo esquecido, no ostracismo. Hoje poucos sabem que ele existe e consta dos registros do dicionário. Simplesmente se diz: É o X da questão. Que X, que nada! Busílis é mais elegante, mais pomposo.

 Além disso, a palavra, em sua natureza e origem, já é sinônima de problema, de algo complicado, o cerne da questão. Faz-me lembrar dos bons tempos em que se estudava latim, em que se traduzia textos do latim para o português. Pois o ‘busílis’ nasceu numa trapalhada de aluno: confundiu “in diebus illis” (naqueles dias”), e, na translineação, misturou sílabas, juntou “Indie” como se fosse “Indiae” (Índias) e empacou na outra parte – busílis-, palavra inexistente. Gastou seu tempo em procuras sem fim nos dicionários de latim. O problema, no entanto, encontrava-se na palavra inventada, fruto de junção indevida, portanto algo inexistente. Um problema sem solução. Que saudade de busílis! Se o empregar na fala ou escrita, atualmente, vão olhar para mim com a mesma cara do aluno que fez a lambança. Não me importo. Alguém haverá de me levar a sério e, de certo, irá ao dicionário diante do meu busílis, pois será o busílis dele naquele momento.

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