quarta-feira, 3 de julho de 2013

Lexicário - Claudinho Pereira & Rafael Bán Jacobsen


Claudinho Pereira é um dos mais respeitados DJ’s do Rio Grande do Sul. É autor do livro Na Ponta da Agulha, indicado, agora, como Melhor Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES).

As palavras de Claudinho fazem parte do Lexicário desta semana.
CLL - De qual palavra da língua portuguesa tu mais gostas?
Claudinho Pereira - Para mim, a palavra Saudade não tem igual no mundo, em sentido, em significado e força.
Sempre me pergunto qual a origem da palavra Saudade. Seria do latim(solitate) do Árabe(Saudah) ou dos arcaísmos (soydade,suydade). Só sei que Saudade é um sentimento que deve existir no coração de todos

CLL - Qual palavra tu não gostas? Que te doa os ouvidos?
CP - A palavra Diarreia é um horror, doí no ouvido e na barriga.

CLL - E qual palavra tu achas que deveria ser resgatada? (no sentido de expressão antiga que deixou de ser usada publicamente)
CP - Gosto muito em todos os sentidos da palavra Acepipes. Pequeno prato salgados também conhecidos por Canapés, que são servidos com  aperitivos consoante em caráter íntimo ou em reuniões e cerimoniais




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Rafael Bán Jacobsen é professor, físico da UFRGS, pianista e escritor. É autor de Tempos & Costumes e de Solenar (ambos livros agraciados com o Prêmio Açorianos de Literatura) e também de Uma leve simetria (finalista do Prêmio Açorianos de Literatura e do Prêmio Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores). O projeto de seu romance Imemorial das pedras (ainda inédito) foi contemplado com a Bolsa Funarte de Criação Literária. 



CLL - De qual palavra da língua portuguesa tu mais gostas?

Rafael Bán Jacobsen - Tenho uma relação de amor e ódio com as palavras, e talvez ninguém melhor do que Clarice Lispector, em "Água Viva", tenha conseguido expressar o que sinto em relação a elas: "escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora." Assim é difícil escolher uma palavra, mas, frente ao desafio, optaria por uma palavra que traz em si essa ambição de querer dizer muito, de pescar muitas verdades, de apreender múltiplos sentidos: é a palavra "simetria", que afirma a busca humana por padrões e ordem em meio ao caos, guiando nosso pensamento nas mais diferentes áreas (na geometria, na matemática, na física, na biologia, nas artes em geral e até na literatura em particular) e, por conseguinte, influenciando na construção da nossa noção de "belo". 


CLL - Qual palavra tu não gostas? Que te doa os ouvidos?
RBJ - Uma que nunca me soa bem é "digladiar", porque, além de conter o feioso encontro consonantal "gl" e a repetição "di-di" (que, inevitavelmente, soa infantil), é uma palavra que, apesar de certa, parece errada. "Degladiar" soaria muito melhor, ainda que incorreta, enquanto "digladiar" sempre me parece prima da "mortandela" e do "mindingo". 



 CLL - E qual palavra tu achas que deveria ser resgatada? (no sentido de expressão antiga que deixou de ser usada publicamente)

RBJ - São muitas e muitas as palavras que mereceriam ser revividas. Uma dela é "acepipes", palavra ideal para designar de modo coletivo e sintético: os docinhos e salgadinhos servidos em festejos (com a vantagem de não ter esse sufixo diminutivo tolinho); os tira-gostos consumidos em momentos de lazer (com a vantagem de não ter ares de contrassenso - tirar o gosto do quê?); os aperitivos ofertados antes de uma refeição (com a vantagem de distinguir-se naturalmente de alguma bebida alcoolica também oferecida nessa ocasião); e ainda os antepastos servidos antes do prato principal (com a vantagem de não provocar reações de humor involuntário ao invocar a imagem de um pasto e de um bovino se alimentando dele). Enfim: "acepipe" é uma daquelas palavras extremamente precisas e úteis, um mot juste por excelência.

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