terça-feira, 11 de junho de 2013

Entrevista - Sergio Faraco


Sergio Faraco é um dos maiores contistas do Brasil, apesar de fazer questão de dizer que não é conhecido nem em Porto Alegre (sic). Faraco nasceu em 1940, em Alegrete. Viveu dois anos na então União Soviética, entre 63 e 65 que, depois, em 2002, dessas memórias resultaria o livro Lágrimas na Chuva.

 Com 42 anos de carreira, e mais de 20 livros publicados (entre eles A dama do Bar Nevada, Majestic Hotel e Dançar Tango em Porto Alegre) é também tradutor livros de Eduardo Galeano, Horacio Quiroga, Mario Arregui, entre outros.

Sergio, no final dos anos 90, notou um declínio na sua ficção e -- para não fazer como John Steinbeck, pós Vinhas da Ira -- decidiu aposentar as chuteiras.

Com exclusividade, Sergio Faraco fala à Coordenação do Livro e Literatura sobre sua carreira, livros que não leu e suas amizades feitas a partir da sinuca.


CLL - O senhor é um escritor muito exigente, chega a escrever e reescrever um conto dezenas de vezes. Como saber quando um conto está pronto?

Sergio Faraco - Contos, eu os escrevia a partir de algo que me emocionava, e trabalhava neles até que, lendo, reencontrasse a emoção que os gerara. Quando achava que havia essa correspondência, dava-os por terminados. Eventualmente, revia textos que considerava prontos, até já publicados. Isto não quer dizer que, ao publicá-los, estivesse enganado, embora, claro, pudesse estar, mas sim que, decorrido algum tempo, pensava ser capaz de aprimorá-los.

CLL - Apesar de ter parado de escrever ficção, o senhor, paradoxalmente, continua escrevendo. Em alguma outra época o senhor passou por esta mesma fase: de escrever e não gostar, a ponto de nada publicar?

SF - Nos anos 90, notei que havia uma queda de qualidade em meus contos. Escrevi alguns depois, mas nada que me convencesse. Hora de parar. Se um escritor entende que já não está apto a dar o seu melhor, ele sai de cena. Não continuo escrevendo.

CLL - Depois de carreira literária consolidada, sendo um dos contistas brasileiros mais célebres, por que escrever? 

SF - Não sou tão conhecido nem em Porto Alegre. Fora do meio, poucas pessoas sabem quem sou. Então não se pode falar em carreira consolidada, que implicaria maior reconhecimento. De resto, não creio que esse retorno ou a falta dele me induzissem a escrever menos ou mais.

CLL - O senhor conheceu João Antônio através da sinuca. Houve outras pessoas, no meio literário, que o senhor conheceu (ou histórias que ouviu, ou participou) por causa do jogo?

SF - Ao conhecer pessoalmente João Antônio, já tinha lido seu conto “Meninão do caixote”, que trata do jogo, mas não conversamos a respeito. Isso veio depois. Também já conhecia Luiz Vilela quando ele veio jogar em minha casa. Mas foi através do snooker que fiz amizade com Nelson Jungbluth, Flávio Del Mese e sobretudo Xico Stockinger, em cuja casa eu costumava jogar nos sábados. Também tenho amigos no salão que frequento.

CLL - Porto Alegre continua sendo uma boa cidade para abrigar novos escritores? Se um jovem escritor lhe pedisse um conselho, o que o senhor diria?

SF - Antigamente, eu costumava responder a essa pergunta, comentando questões que julgava pertinentes. Com o passar dos anos, me compenetrei de que aquilo que eu dizia, se tinha sido útil para mim, dificilmente o seria para outras pessoas. De resto, como aconselhar alguém, se eu não soube resolver meus próprios problemas?

CLL - Sempre existem elucubrações sobre o final do romance. O senhor, como leitor assíduo desse gênero, acha, de fato, que o romance está fadado a desaparecer?

SF - Sempre li mais romances do que contos, é mais fácil encontrar bons romances do que bons contos. Mas nada sei sobre esse desaparecimento. De qualquer modo, acho que a excelência no gênero reside no que já foi feito, e então aquilo que vier a ocorrer amanhã ou depois talvez não faça muita diferença.

CLL - Pra finalizar, gostaria que o senhor me dissesse um escritor que ainda não leu e que gostaria. 

SF - Em minha juventude, li com encantamento o Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, e gostaria de ter lido o Quinteto de Avignon, que ele escreveu mais tarde, mas não passei do primeiro volume. A maioria dos autores que me interessam eu conheço. Há grandes escritores que não li, mas já não tenho disposição para leituras mais ou menos obrigatórias, são livros que eu deveria ter lido quando moço, certamente com proveito.

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