quinta-feira, 27 de junho de 2013

Entrevista - Claudinho Pereira

Foto: Tadeu Vilani


Em entrevista, Claudinho Pereira fala à Coordenação do Livro e Literatura sobre o surgimento e a confecção do seu livro de estréia, “Na Ponta da Agulha. Conta, também, sobre a indicação ao Prêmio AGES, na categoria Livro do Ano.
De quebra: uma história inédita (e exclusiva) sobre a noite de Porto Alegre.

 
CLL - Como foi sair dos Long Plays, ou das agulhas, para se tornar escritor com o livro “Na ponta da agulha”: de onde surgiu essa ideia de resgatar a memória das noites de Porto Alegre dos anos 60, 70 e 80?
 
Claudinho Pereira - O livro já estava na minha cabeça, naquela de “um dia eu faço”. A ideia começa a tomar forma quando o Marcinho Pinheiro me convidou, na Feira do Livro, para escrever o livro. Preta Pereira adorou o convite, me incentivou para colocar as histórias no papel. Entra em cena a equipe da Coordenadoria da Editora da Cidade, com Lucia Jahn e Fernando Rozano e o livro começa a tomar forma. Eu era leitor do Anedotário da Rua da Praia, do Renato Maciel de Sá e do José Rafael Cardoso Coiro com Os Anos Dourados na Praça da Alfândega. Com a morte destes dois grandes personagens da cidade, as histórias da noite de Porto Alegre ficaram órfãs. Eu como testemunha auricular da noite, foi um passo para colocar o livro do meu jeito.
 
CLL - Muitos escritores, cronistas, romancistas, contistas, poetas, buscam na memória, muitas vezes, a realização no presente de um passado inalcançável. Qual é a importância de resgatar essas histórias, por que contar isso agora? Tu sentiu a necessidade? 

CP - Eu tenho admiração e amor pela minha cidade. As histórias, principalmente as mais engraçadas e pitorescas acabam se espalhando ao vento de pessoa em pessoa, ganham outras interpretações, como a brincadeira do telefone sem fio. Como eu faço parte da história, senti a necessidade do livro ser autobiográfico e narrar na primeira pessoa. Contar histórias é um meio muito eficiente de transmitir uma ideia, de levar novos conhecimentos. É um meio de resgatar a memória, no meu caso “a memória da noite”. Todo bom contador de histórias deve ser também um bom ouvinte de si mesmo, do mundo em que vive e de outras pessoas. O contador deve ser sensível para ouvir e escrever.
 
CLL - A confecção do livro durou muito tempo? Foi um trabalho prazeroso e gratificante?
 
CP - O tempo foi fundamental na feitura do livro, para tudo e qualquer coisa que pensamos fazer, não se faz nada se não houver tempo. Antes de qualquer atividade, tenha um tempo para pensarmos e analisarmos riscos ao tomar uma decisão, “o tempo não passa, nós é que passamos pelo tempo”. O livro teve o seu tempo certo no processo histórico e foi prazeroso e gratificante.
 
CLL - Qual a importância da valorização e do reconhecimento de ser finalista na categoria Não ficção, já com o primeiro livro, do Prêmio AGES – Livro do ano – 2013?

CP - Ser indicado pelo júri técnico, na categoria Não Ficção a livro do ano 2013, já é um prêmio. Ainda mais junto com Carlos Gerbase e Flávio Tavares, aí é a gloria. Rsrs.
 
CLL - O fotógrafo Eurico Salis, no dia do lançamento de “Na ponta da agulha”, na Feira do Livro do ano passado (2012), disse que “o Claudinho não cabe num livro só”. E aí, cabe ou não? Tem algum projeto de continuar na série do “Na ponta da agulha” e contar histórias incontadas? Ou tem o projeto de um livro novo?

CP - Já comecei a pesquisa para o Lado B, que vem a ser a continuação do livro Na Ponta da Agulha. Este vai ser mais salgado, vem ai histórias incontáveis.

CLL - Pra fechar, poderia contar alguma anedota incontável que ficou fora do livro?

CP - O dia em que Ray Charles tocou no Big Som, o bar era do Marquinho (Marco Antonio) baterista. Músicos brasileiros e estrangeiros, quando passavam pela capital, davam uma canja musical no Big, ficava na Joaquim Nabuco quase esquina com a Rua José do Patrocínio. Acontece que Ray Charles estava hospedado no Plaza São Rafael, e por volta da uma hora da madrugada o rei do blues, sem sono, resolveu tocar piano. O hotel não tinha piano. O Mestre do Hotel Oscar resolveu indicar o Big Som, conhecido como Bar de Jazz. Chamou um táxi e colocou a celebridade a caminho do referido recinto. Chegando lá, o grande músico foi parar ao piano do Maestro Garoto, que era na época o pianista oficial da casa. Para encurtar a história, o bar estava à meia boca, restavam alguns casais e o velho bebum de fim de noite. Reza a lenda que o cidadão não gostou do desempenho do Rei, e lascou: “Isso aqui já foi melhor, hoje trouxeram esse negão xarope (desculpe, afrodescendente) que não toca porra nenhuma e só fica cantando inglês e ainda por cima imitando o Ray Charles. O meu, deu pra ti, me fui com ovos”.

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