sexta-feira, 31 de maio de 2013

Entrevista - Francisco Botelho

Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Foi finalista do Prêmio Açorianos de 2012, na categoria Conto, com o livro A árvore que falava aramaico. Francisco  -- ou Chico, aos mais íntimos (nem tanto) -- conta um pouco para nós sobre como está sua vida de volta às entranhas de sua terra natal, Bagé. Das suas novas aventuras pela literatura e sobre sua inédita tradução para a Companhia das Letras.

CLL - O que tu está produzindo literariamente. Novos contos?, Ou tu está trabalhando em traduções?, Ou outra coisa.

Francisco Botelho - Acabo de completar uma tradução dos Contos da Cantuária de Geoffrey Chaucer, para a Companhia das Letras, que deve sair ainda este ano. Foi uma tradução quase toda em verso (só traduzi em prosa as poucas passagens não versificadas no original); e traduzir em verso, no caso, implica métrica, rima, ritmo e um bom mergulho no inglês medieval. Foi um trabalho longo, mas uma delícia rara. Fiquei um ano, mais ou menos, imerso literariamente no Chaucer. Ia ao supermercado e sem perceber começava a contar as sílabas dos rótulos, na ponta dos dedos, e tentava transformar tudo em decassílabos; até que alguém, em geral minha esposa, tinha de me dizer "chega de decassílabos, Chico". Agora estou saindo aos poucos desse estado meio alucinatório, mas a coceirinha na ponta dos dedos continua.

Tenho projetos, claro. Um romance histórico-fantástico sobre os primórdios da Fronteira gaúcha inspirado em parte no "Bomarzo", de Mujica Láinez. Uma novela à la Joseph Conrad sobre o "gaucho malo" e o pampa noir: as grotas, os cuchilleros, as montoneras, as vendetas, os feudos-de-sangue, os fantasmas e as sombras da Campanha, que, como o sertão, também é o Mundo.

 E escrever contos é mais ou menos um estado natural, ou um vício; tenho alguns prontos, talvez para uma próxima coletânea. Mas é aquela história: é fácil fazer projetos; fácil demais. Aliás, fazer projetos literários também é um tipo de vício. Talvez um dia eu publique um livro que seja só uma coleção de projetos, cada um resumido em uma página, ou um parágrafo.

CLL - No Sarau Cidade-cidades, tu contou que teve um hiato na tua produção, depois que tu lançou o livro A Árvore que Falava Aramaico. E só veio querer recomeçar a escrever em Bagé. Tu, conscientemente, sabe por que aconteceu isso?

FB - Sim, agora já posso explicar mais ou menos por quê. Eu tenho uma relação intensa, ciumenta, exagerada com Porto Alegre. Me sinto privilegiado por ter tido vinte e poucos anos na Porto Alegre do final do século XX e início do XXI. Era um lugar escandalosamente bom para se ter vinte e poucos anos; a vida era uma espécie de epopeia de província, entre o familiar e o inusitado. Porto Alegre e eu – nós ouvimos os sinos da meia noite. Pouco a pouco, no entanto, Porto Alegre e eu fomos nos estranhando. Nos estranhamos tanto que fiquei bloqueado, ou talvez emburrado, não sei; me desbloqueei ou desemburrei apenas quando voltei para Bagé. Bagé mudara, mas não tanto quanto outros lugares. Às vezes, andar por Bagé me parece como estar caminhando no meio das minhas memórias; por outro lado, percebi também que conhecia minha cidade natal muito menos do que inicialmente imaginara. Familiaridade e estranheza – é uma combinação que sempre funciona e que, mais cedo ou mais tarde, nos leva a escrever. Espero que o mesmo sortilégio volte a ocorrer em relação a Porto Alegre, quem sabe, daqui a alguns anos. Tenho esperança de que vamos fazer as pazes.

(Mas o fato é que preciso de lugares, sou viciado em lugares. Mujica Láinez dizia que, quando criança, preferia os objetos inanimados às pessoas, e que certa vez se apaixonou por um abajur. Eu me apaixono facilmente por ruas, calçadas, telhados, ou por ermos desertos, ou às vezes por um simples ponto no espaço, como o canto de uma parede ou um parasita em uma árvore; e assim como se ama uma cidade, pode-se quebrar os pratos com ela).

E, de qualquer forma, permanece o fato de que Bagé é notoriamente a cidade mais excêntrica do universo. Aqui nunca falta assunto.

CLL - Como foi, com um livro de estreia, ser finalista do Açorianos?

FB - Foi excelente. Eu, sinceramente, não esperava essa indicação, exatamente por ser um livro de estreia, lançado longe da mídia, meio na moita. Na verdade, o lançamento inicial do livro foi em Bagé; mais tarde lancei em Porto Alegre, muito discretamente. Na manhã em que os finalistas foram divulgados, eu estava distraidamente tomando mate na minha casa em Bagé, quando meu amigo, o também contista Gustavo Melo Czekster, me avisou via facebook. Fiquei muito feliz, claro, e larguei o mate pela metade (coisa que nunca faço, via de regra).

CLL - O Açorianos te abriu alguma porta?, Tu fez alguma amizade a partir dele?

FB - Ganhei alguns bons leitores por conta do Açorianos, certamente. Por meio da premiação, também acabei conhecendo o Diego e o Guto.  E fiquei  bem amigo do Olavo Amaral, que também concorria, com Correnteza e Escombros. O Altair Martins eu já conhecia, dos tempos em que eu fazia mestrado em Letras na Ufrgs.

CLL - Tu é formado em jornalismo. Tu traz alguma referência do curso em relação à tua escrita?, ou tu pretende fazer alguma obra do tipo jornalismo literário?

FB - Convivi com grandes caras na Famecos. Um deles foi o Aníbal Damasceno Ferreira. Bem, todo mundo sabe que ele foi um cara incrível; mas o fato é que ele foi mais incrível do que muita gente imagina. Por exemplo: o Aníbal sabia escrever em chinês. Dominava galantemente aqueles milhares de ideogramas chineses, e tentava ensiná-los a mim, após as aulas, rabiscando os caracteres com giz no quadro negro. O Aníbal uma vez me disse: "A vida de um cara só fica completa quando ele se dedica a estudar algo que, no íntimo, sabe ser totalmente inútil". Levei isso muito a sério e até hoje sempre me esforço para aprender coisas que não me sirvam de nada; mas o conselho do Aníbal era ambíguo, talvez propositalmente ambíguo, porque no final das contas tudo o que a gente aprende acaba sendo útil, mesmo que de maneiras pouco evidentes. Por exemplo: o Aníbal um dia me disse, "vai estudar latim, tchê, tu tens cara de quem estuda latim". Estudei, de fato, e embora jamais tenha me tornado um latinista sequer razoável, o pouco que aprendi me foi imensamente útil. Mas também foi divertido, acima de tudo; e acho que isso era o que o Aníbal queria dizer: vá estudar latim ou chinês, ou vá fazer cinema ou escrever; ou aprenda a produzir licores caseiros, ou estude litografia; divirta-se, enfim.

Outro cara incrível que encontrei por lá foi o Vitor Necchi. O Vitor, que era meu professor de redação jornalística, me disse certa vez uma frase genial: "Nunca despreze um assunto". Talvez ele nem lembre de ter dito essa frase; mas disse, em uma aula, e eu anotei. Queria dizer que um bom jornalista sabe como tornar qualquer assunto interessante (ou quase qualquer assunto, enfim). No futuro, eu acabaria mesmo escrevendo sobre coisas muito diferentes, desde mitologia grega a economia e patrimônio histórico e religião e agricultura e genética. E uma parte dessa ética intrometida e difusa eu levei para a literatura: várias pessoas me dizem que o meu livro não tem assunto, não tem unidade de tema, que aparentemente salta entre gêneros e temáticas muito diferentes. O que sempre guiou meu interesse foi a estranheza das coisas; jamais consegui me definir como um escritor exclusivo de temas urbanos, ou folclóricos, ou rurais; meus afetos fraternais estão com a literatura fantástica, porque foi a mais desprezada pela intelligentsia, mas às vezes me pego sendo um realista do século XIX. Então, essa coisa meio esquizofrênica do meu livro – em parte, foi porque eu segui o conselho do Vitor.

De resto, uma coisa que sempre haverá em comum entre o texto jornalístico e os contos que escrevo: eu tenho uma tendência muito forte ao texto narrativo. As ideias já surgem em minha cabeça na forma de pequenos códigos narrativos; meu esforço em escrever é voltado, basicamente, aos métodos de se contar histórias extraindo delas o máximo de sentidos humanos e, também aquela fração de mistério sem o qual não existe arte – mas sem sair do âmbito da narrativa; sem atraiçoá-la. Não sei se sou bem sucedido ou não; mas é o meu projeto. A narrativa pura e simples é um pouco desprezada pela teoria literária hoje em dia. Pensa-se que "apenas contar uma história" é muito pouco para fazer literatura. Mas a minha profissão de fé é que existe algo de transcendente em uma história bem contada, algo que desperta partes de nossa mente antes entorpecidas; e, como escreveu o Bioy, o ser humano tem essa necessidade atemporal e sempre renovada de contar e ouvir (ou ler) histórias.

 Um costume que levo do jornalismo à literatura e vice-versa é o de tomar notas. Estou sempre anotando algo, mesmo que seja só mentalmente. Gosto muito de praticar a sinestesia em meus textos; introduzir na narrativa a cadência das vozes, os detalhes da arquitetura, os cheiros e as luzes específicas de um lugar; as roupas, os gestos; e isso é algo que cabe tanto no jornalismo quanto na ficção.

 (Esse hábito de tomar notas mentais contínuas tem a consequência de que às vezes o acúmulo de impressões dá origem a lugares híbridos dentro da minha mente, misturas de lugares reais que fui dissecando e arquivando; e esses lugares me obcecam de tal forma que preciso fazer algo acontecer neles. Alguns dos meus contos existem simplesmente porque eu tinha uma casa na cabeça – a memória de uma casa ou a combinação de várias casas que conheci; e eu precisava de um relato para preencher aquelas salas, aquela penumbra, aquele silêncio. Por exemplo, tenho um conto sobre um sujeito que após muitas viagens volta ao casarão da família e descobre seus parentes transformados em ratos. Bem, quem lê em geral repara mais nos ratos; mas escrevi o conto por causa daquela casa. Ela me perseguia há muitos anos e, um dia, resolvi enchê-la de ratos, foi isso. As histórias nascem assim, eu acho).

E, sim, tenho projetos para um livro jornalístico. Há alguns anos fiz uma reportagem sobre os locais onde as vítimas de hanseníase eram compulsoriamente internadas ao longo de boa parte do século XX, como o Hospital Colônia Itapuã. Entrevistei muita gente que vivia lá isolada do mundo há quarenta, cinquenta anos. O material que reuni acabou extrapolando a reportagem, e pretendo transformá-lo em algo maior. Se me perguntas por influências, meu jornalista-escritor favorito é o Robert Fisk, que ainda está na ativa.

CLL - Pra finalizar: teus contistas preferidos. Os que tu mais curte e os que tu quer ler (e ainda não deu tempo).

FB - Bem, por estranho que pareça, tenho lido poucos contos. Li muitos, li realmente uma multidão de contos no período do meu autodidatismo literário, lá na casa dos vinte anos. Não fiz faculdade de Letras (embora mais tarde tenha feito Mestrado), então basicamente aprendi pelo método empírico-caseiro. Aí, claro, passei por boa parte do panteão: Borges, Cortázar, Poe, Maupassant, Tchekov, Hemingway, Bioy Casares, Benedetti, Onetti. E o Quiroga – talvez seja dele meu conto favorito, um conto simples e brilhante, sobre cachorros, o pampa, o isolamento e a morte: chama-se A Insolação. É meio clichê citar tantos uruguaios e argentinos, mas não tenho muita escapatória; sou meio platino – meio lusíada e meio charrua, costumo dizer. Um platino lusófono e babélico. Entre os conterrâneos, tenho também alguns mestres: Sergio Faraco, Simões Lopes Neto, Darcy Azambuja, Alcides Maia. Talvez o autor que, individualmente, eu tenha mais lido e relido seja o Kafka. Um crítico certa vez escreveu que é impossível ter-se deleite lendo Kafka, que Kafka não é exatamente um autor que se lê por prazer; para mim o Kafka então é meio que um prazer proibido ou pecaminoso: eu o adoro; é uma de minhas leituras favoritas. E existem testemunhos de que Kafka, ao ler em voz alta para os amigos suas histórias mais horrendas e sombrias, soltava tais gargalhadas que tinha de se apoiar nas paredes, para não cair no chão. Ele era um grande cara.

E, claro, sempre temos nossos excêntricos favoritos, aqueles que em geral são pouco conhecidos. Gosto muito do Marcel Schwob, por exemplo, de Vidas Imaginárias e O rei da máscara de ouro. Mas talvez quem mais tenha me ensinado o rigor da narrativa tenham sido os da ficção científica: Philip K. Dick, Ursula LeGuin, Theodore Sturgeon, Ray Bradbury. A boa ficção científica, como o bom conto de suspense e mistério, não tolera autoindulgência e vaidades vazias.

Os últimos livros de contos que li foram O Homem Despedaçado, do Gustavo Melo Czekster; Monstros fora do Armário, do Flávio Torres; e Correnteza e Escombros, do Olavo Amaral. Três grandes livros que recomendo fortemente.

De resto, ultimamente tenho sido mais um leitor de romances, poesia, história política e coisas estranhas em geral, que sempre me atraem, como a história do vodu, a história dos muçulmanos da China, as biografias dos hereges medievais, sei lá, essas coisas. É normal que as ideias para contos venham mais de outros gêneros, ou de narrativas orais, ou de recantos aleatórios. Tenho um conto chamado Viagem Noturna que é inspirado em uma nota de rodapé de Carlo Guinzburg, por exemplo; o livro, se não me engano, é sobre os Sabás das feiticeiras. Assim as histórias vêm e vão, enfim, ao infinito.

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