segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Poesia Feminina na América Latina | Brasil

Nossa sessão de poesia feminina na América Latina continua, hoje é a vez do Brasil. Começamos com as poetas do sul, confere quem são as gurias!
Lila Ripoll
Lila Ripoll, nascida em Quaraí, em 1905 foi uma poetisa gaúcha. Mudou-se para Porto Alegre na adolescência, a fim de completar seus estudos, tornando-se professora de piano e a mais ativa representante de seu sexo nos meios literários da época em que viveu. Embora tenha se integrado aos modos de representação do mundo burguês, predominantes nas rodas literárias de Porto Alegre, foi responsável pelo acréscimo muito pessoal da temática da negatividade do ponto de vista da mulher.Sua obra poética está inserida no chamado neo-simbolismo, que floresceu no cenário sul-riograndense depois dos anos 30, e foi publicada entre os anos de 1938 e 1961, compondo-se de oito títulos: De mãos postas, Céu vazio, Por quê?, Novos poemas, Primeiro de maio, Poemas e canções, Coração descoberto e Águas móveis.

Confere os versos da poeta:
Correntes 
 
Tantos e tantos caminhos
e os meus pés aqui parados
na negativa de andar.
Cansei a boca e o desejo,
Desenrolei pensamentos,
Pedi, pedi que seguissem
E eles ficaram imóveis,
Como rocha junto ao mar.

Há correntes invisíveis
Enroladas no meu corpo.
- Ninguém as pode partir! -
Fico parada às estradas,
Encho a cabeça de sonhos,
Atiro as mãos para frente
Mas nunca posso seguir.
Minha roupa às vezes toma

A forma exata de um barco

Que morre por navegar.
Mas – ai! De mim! – faltam remos,
A água vem, vai e volta,
Molha meus pés invisíveis
E as correntes não me deixam.
- Meu destino é renunciar. -
Os caminhos estão claros

E há um convite sem medidas...

- Ah! Partir minhas correntes! -
Prisioneira do meu corpo,
Sobem ondas de desejos,
Descem ondas de esperança –
Vai e vem soturno e triste
Como a água das vertentes!

Pode a vida fechar todos
os caminhos que me abriu.
Meus pés não querem andar.
Falei sempre inutilmente...
Minha boca é um traço triste
Que perdeu seu movimento
De pedir... sem alcançar...



Lara Cibelli de Lemos, nascida em 22 de julho de 1925, em Porto Alegre, foi criada pela avó materna em Caxias do Sul, tendo ficado órfã, de pai e de mãe, aos cinco anos de idade. Formada em História, Geografia, Pedagogia, Jornalismo e Direito, Lara de Lemos fez especialização em Literatura Inglesa e Contemporânea, pela Southern Methodist University, nos Estados Unidos. Com uma ampla formação acadêmica, destacou-se no cenário gaúcho e carioca pela sua atuação como professora, tradutora, poeta e jornalista.

Em sua atuação no meio jornalístico, a autora colaborou com periódicos gaúchos, como Correio do Povo e Zero Hora, e cariocas, como Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa. Colaborou ainda com a Revista Diadorim, de Minas Gerais, e com a revista Colóquio-Letras, de Lisboa. Lara de Lemos foi professora de História Geral, do Quadro Único do Magistério Público Estadual do RS e funcionária do Ministério da Educação e da Cultura, atuando em diferentes funções.

Na poesia, sua estreia foi com o livro Poço das águas vivas (1957), pelo qual recebeu o Prêmio Sagol. Trata-se de uma obra com foco na subjetividade, conscientemente voltada para o eu. O seu segundo livro, Canto breve (1962), dirige um olhar ao social, mas guarda a perspectiva da experiência pessoal da autora, tendência que será observada ao longo de toda a sua obra. No ano de 1985, a Prefeitura Municipal de Porto Alegre concedeu-lhe o Diploma de Mérito Cultural pelo conjunto de sua obra e, em 1997, a autora recebeu o Diploma de Personalidade Cultural, da União Brasileira de Escritores.

Além de ter sua obra reconhecida por importantes críticos literários, como Guilhermino César, Maria da Glória Bordini, Gilberto Mendonça Telles e Paulo Rónai, Lara de Lemos ganhou notoriedade ao compor, com Paulo César Pereio, em 1961, o Hino da Legalidade, para o movimento popular pela posse de João Goulart.
Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, solicitou esse hino ao grupo de artistas que frequentava uma oficina no Teatro de Equipe, que atraiu muita gente que era a favor da legalidade. Nessa época, conforme Almeida e Guimaraens (2003), Lara de Lemos participou do Comitê de Resistência Democrática dos Intelectuais, que se reunia na sede do Teatro de Equipe, em Porto Alegre, entre o final da década de 1950 e início da década de 1960.

Confere alguns versos da poeta:

Degredo

Em lugar de documentos
deixaram-me a marca
amarga no rosto.

Nela me reconheço
a cada dia.

Única identidade
a que pertenço
inteira.

(Adaga lavrada, 1981)

Da resistência


Cantarei versos de pedras.
Não quero palavras débeis
para falar do combate.

Só peço palavras duras,
uma linguagem que queime.

Pretendo a verdade pura:
a faca que dilacere,
o tiro que nos perfure,
o raio que nos arrase.

Prefiro o punhal ou foice
às palavras arredias.

Não darei a outra face.

(Inventário do medo, 1997)

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