sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Os livros da casa | Por que os ponchos são negros

É bonito, necessário e interessante falar sobre os outros. Quem não gosta? Da fofoca ao elogio, da crítica ao comentário; tudo acerca dos outros sempre foi muito bem-vindo em qualquer lugar. Aqui também. E ainda é. Mas agora, nesse instante (e nesse post) em questão, é hora de ler o que é de casa. É o momento de sacar o que é de dentro pra dar de comer aos olhos leitores que são de fora. E é com modesto prazer que começamos essa série de leituras com o livro negro de Roberto Schann Ferreira, Por que os ponchos são negros.


O livro de Schaan narra as memórias de um protagonista anônimo durante a ditadura militar no Rio Grande do Sul. Na tangente de um grupo “subversivo”, acaba sendo tomado por revolucionário e tendo de fugir para o interior do Estado para escapar da opressão. Na trama, entre relato histórico de um período violento da história do Brasil e o resgate poético de uma juventude conturbada, há a impossibilidade de um romance e o trauma de um abandono forçado da própria identidade.

Pra dar uma leve prova do que o autor nos proporciona, aí vai um pequeno trecho do romance:

Na manhã nevoenta e úmida, as folhas lacrimejavam. Poucos pássaros se moviam ou piavam. O passo do cavalo embalava o torpor da noite mal dormida. Apenas uma dúvida, que pairava em alguma fronteira também nebulosa do meu cérebro, tentava me resgatar da sonolência. O felino me assombrava. Devia matá-lo. Essa era a missão que me trouxera ali.

Porém, impressionava-me a imagem do animal: seu vigor e sua naturalidade selvagens. Nunca me deparara com uma visão tão vigorosa da natureza animal. Os anos que passara ali me haviam ensinado muito de sua bela dinâmica. Sua determinação simples em prover à fome e à sede imeditas; sua exclusiva ocupação com o presente, tratando de salvar dia por dia; e, apesar disso ou por isso mesmo, sua obsessão em sobreviver. No seu horizonte não havia justiça ou injustiça, bem ou mal: havia a força, a agilidade, o instinto.

Outra vez me veio a consciência de que, ao chegar naquele ambiente, havia sido exposto à minha animalidade; que tivera que recuperá-la, que desenvolvê-la para sobreviver. Havia sido lançado ao confronto com um mundo físico e hostil que a humanidade já desconhecia. Mas nada pudera representar isso tão expressivamente quanto à visão do puma.

Por que os ponchos são negros é um livro editado pela Editora da Cidade e é resultado do Prêmio Açorianos de Criação Literária de 2011, na categoria Narrativa Longa.

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