quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Finalistas Açorianos: Criação Literária em Poesia | Guto Leite

Guto Leite | Foto: Tainá Colombrini
Pra ti leitor, que quer ficar por dentro do Prêmio Açorianos de Literatura 2012, a CLL continua as entrevistas a todo vapor! Hoje é dia da categoria Criação Literária em Poesia, e quem falou com a gente foi o finalista Carlos Augusto Bonifácio Leite, vulgo Guto Leite. O escritor concorre a categoria com o livro Entrechos ou Valas do Silêncio. Confere aí o que ele andou falando pra gente!


CLL - De que maneira começou a tua relação com a poesia? Começou primordialmente por ela ou teve passagem por outros gêneros literários?

Guto Leite - É uma relação desde muito cedo na minha vida. Meu primeiro livrinho, artesanal, foi com sete ou oito anos. Como minha mãe guardou, ainda me deparo com ele nas mudanças de casa. Mais tarde, na adolescência, veio o gênero mais fácil pra mim, que é a canção popular. Mesmo cansado, ainda consigo fazer poemas quando me dedico. A canção é a primeira a cair fora em tempos atarefados.


CLL - Qual é a mesura entre um poema bom e um poema ruim? O que qualifica a poesia?

G.L - Costumo brincar, de maneira séria, que um poema bom te acrescenta tempo, porque encurta o que você investiria normalmente em maturidade existencial, linguística ou ambas. Um poema ruim te retira tempo, você acaba o poema e sente que aquele autor te roubou alguns irreparáveis momentos de vida. Mas o leitor de poesia não deve se enganar, a maioria dos poemas que ele ler na vida serão ruins. Imagens bem construídas, o pulso ou metro dominado, uma percepção não trivial das coisas são qualidades de muito poucos poemas. A maior parte, inclusive dos meus, é vaidade.


CLL - Poesia é visceral ou racional?

G.L - Não vejo oposição nos termos. A visceralidade intensifica a racionalidade e a racionalidade intensifica a visceralidade. Pra não ficar só no jogo de palavras, somente por meio de um conhecimento profundo das minhas entranhas (pra seguir o topos) é que consigo racionalmente organizar parte do caos das coisas. E o anverso também: só por meio de muito esforço racional que consigo compreender as forças que pulsam em mim de maneira mais orgânica e primitiva. A poesia faz parte desses extremos opostos e coincidentes.


CLL - Tu vê a internet como um bom meio para divulgar o escritor, ou o livro ainda é o melhor canal? Qual é a expectativa que tu tens com a publicação?

G.L - A internet é um bom meio de divulgação sim, só não sei se o livro já foi algumas vez o melhor canal. Se "melhor" for no sentido de tornar perene, talvez sim. Mas se "melhor" for no sentido de alcance, sobremodo em nossa cultura, o livro nunca foi o melhor canal. A canção popular está aí como prova evidente disso. Em contrapartida, a internet tem virtualmente o poder que as grandes metrópoles têm materialmente, submerge os artistas de destaque num mar de produções ruins. 

Por definição (histórica), quase chego a dizer que sempre serão mais produções ruins do que produções que merecem ser lidas, que avançam ou multiplicam nosso conhecimento de mundo, de linguagem da experiência humana etc. A princípio a internet iguala as produções, o que é bom, mas é preciso ser astuto pra que não se sucumba a uma igualdade que rebaixa a qualidade esperada... 

Sobre a possível publicação do meu livro, minhas expectativas são que ele acrescente alguma coisa a algumas pessoas e entre no debate. Só um poeta biruta acha que seu livro vai mudar de imediado a maneira de pensar ou sentir de muita gente. Nosso panorama hoje é mais tímido.

CLL - Qual a importância do Prêmio Açorianos pra ti e como tu acredita que ele repercute dentro da classe artística da região?

G.L - Não tenho muito como responder a isso, na verdade. Imagino que seja importante porque são sempre leitores qualificados que compõem os júris das categorias e do Prêmio Açorianos de Criação Literária. Nesse sentido, já me sinto feliz por ter sido escolhido por bons leitores como um dos finalistas, isso já dá uma baita satisfação de trabalho bem feito. Por outro lado, não tenho qualquer fetiche em relação à estátua ou a ser reconhecido como ganhador ou finalista. O único julgamento realmente válido para a literatura é o tempo, e sobre esse julgamento não há qualquer controle. Sem hipocrisia, há o dinheiro do prêmio, que seria ótimo pra seguir fazendo arte, pra reverter em arte de alguma forma, pra ter mais liberdade pra criar, essas coisas. 

Também seria maravilhoso que simbolicamente o prêmio se revertesse em mais trânsito na cena do estado, em novas possibilidades de incomodar poeticamente mais leitores e escritores, mas como nunca ganhei um Açorianos, não sei o quanto desa força realmente se concretiza. Falar sobre prêmios, aliás, sempre me faz lembrar de uma crônica do Nelson Rodrigues, "A vaca premiada", conhece? 

Eu encaro poesia como um trabalho, algo que faço sempre, que busco aprimorar, para o qual procuro saídas etc. Sou Cabral Futebol Clube, nesse sentido. Um prêmio seria o reconhecimento por esse trabalho, ao qual me dedico há pouco tempo, quinze anos, regularmente. Acho que eu me emocionaria como a vaca da crônica do Nelson, mas friamente, depois, conceberia como reconhecimento a respeito daquilo a que dedico minha vida. Só e tudo isso.

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