quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Um portal entre os mundos de Cortázar

Há exatamente uma semana, o escritor argentino Martín Kohan ministrou, durante o 7º Festival de Inverno de Porto Alegre, a palestra El cielo de Cortázar, na qual analisou três contos com elementos convergentes dentro do legado literário do autor de Jogo da amarelinha que, de acordo com Kohan, era um escritor "de dois mundos"

A pluralidade de mundos (e o estabelecimento de "pontes" entre eles) sempre aparece na obra de Cortázar: o escritor expressa constantemente um conflito entre a alta cultura e a cultura popular, seja em situações expostas nos contos, seja no pensamento de seus personagens.
Durante o encontro, Kohan estabeleceu a ligação dos temas abordados por Cortázar com os do compatriota Borges, explicando que, enquanto a ideia central nos textos de Borges era o labirinto e a busca pelo infinito, Cortázar escrevia fixado pelo conceito de passagens, de períodos de transição, caminhadas e jornadas, num constante vagar entre diferentes ambientes. Deste modo, o céu é apresentado como figura de contrastes entre realidades diferentes: o céu divino, o firmamento bíblico em oposição ao "céu" de uma galeria coberta em Buenos Aires - uma espécie de "céu humano", criado segundo a vontade do homem para abrigar um ambiente boêmio, noturno. Não é à toa que a questão da transição seja tão presente na literatura de Cortázar, afinal de contas ele nasceu em Bruges, na Bélgica, mudou-se para Buenos Aires e, no final da vida, desapontado com o peronismo, foi morar em Paris para escapar do ruídos dos bombos nas festividades de rua na Argentina.

A vida de viagens marcou tanto o autor analisado por Kohan que o final dos contos (Torito, El otro cielo e Las puertas del cielo) é marcado pela tragédia. Os "lugares de passagem" encontram-se trancados, de forma que, para o mundo ficcional de Cortázar, a pior situação possível é a impossibilidade de transitar entre diferentes mundos: seja entre Buenos Aires e Paris, seja entre as realidades da sociedade da alta cultura (e do imaginário "falso" do povo argentino, segundo o qual o povo indígena não existe na história do país) e  das festas populares.  

Ao final da palestra, o público fez perguntas e debateu com Kohan sobre a obra de Cortázar, esclarecendo dúvidas quanto à literatura selecionada e trazendo ao evento um pouco dos outros livros do autor para a mesa. A seguir, Kohan autografou cópias do seu último livro, Segundos Fora, para os participantes da palestra e disse ter gostado muito de ministrá-la. "As melhores palestras são aquelas em que o palestrantes não só exibe o conteúdo preparado, mas também aprende com o público. E foi este o caso hoje", afirmou.

Um trecho do discurso de Kohan pode ser visto no vídeo abaixo:


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