segunda-feira, 7 de maio de 2012

Homenagem a Augusto dos Anjos

O último post no blog da Coordenação do Livro e Literatura sobre a 5ª FestiPoa Literária narra o último evento da 10ª e penúltima noite de festejos. O que foi comemorado? Os cem anos da publicação de Eu, histórico livro de poesia de Augusto dos Anjos.

Paulo Seben, Ana Tettamanzy, Jaime Medeiros Jr. e Sidnei Schneider conversam sobre a obra de Augusto dos Anjos

Para trazer ao público um resgate histórico da vida do poeta e leituras variadas de sua obra, reuniram-se na Casa de Cultura Mário Quintana o poeta, tradutor e contista Sidnei Schneider, o poeta Jaime Medeiros Jr., a professora Ana Tettamanzy e o professor e poeta Paulo Seben. Cada um dos participantes trouxe um tópico, aspecto ou ponto de vista diferente para analisar o texto de Augusto dos Anjos.

Schneider iniciou o encontro com o contexto histórico da publicação do livro, que não recebeu muita atenção quando foi publicado em sua primeira edição. Só em 1920, quando a obra foi reeditada e recebeu um prefácio de Órris Soares, passou a gerar maior impacto no cenário literário nacional. E há muita inovação em Eu, que é muitas vezes rotulado como um produto parnasiano de inspiração romântica: "A busca no Eu é do sublime através do grotesco", afirmou Schneider. Elementos modernistas já transparecem, como a autocitação do poeta em seu próprio texto e a inclusão da forma de um soneto dentro de um poema.

Jaime Medeiros Jr. levantou uma série de questionamentos quanto à obra, citando entre eles a confluência de estilos presentes na poesia de Augusto dos Anjos. Segundo o poeta, em Eu, há uma linguagem modernista para tratar de temas simbolistas utilizando-se da síntese de contrastes do barroco. 

Ana Tettamanzy falou sobre o aspecto popular da poesia do paraibano, sobre como o leitor sente necessidade de declamar os poemas ao lê-los. De acordo com a professora temática de Augusto dos Anjos aborda imagens como "a cidade dos mortos", inspirada pela vivência do "engenho" transformada em analogia para a sociedade brasileira (o Brasil visto sob o viés da decrepitude física, reflexo da decrepitude moral), que exemplifica uma sociedade estagnada com desejo de superação e mudança. O assunto, que também dialoga com a perspectiva popular, aproxima-se deste âmbito justamente pela utilização de vocábulos científicos na poesia de Augusto dos Anjos - é uma linguagem exótica, mas melódica, fácil de memorizar e curiosa.

Paulo Seben apresentou uma análise da versificação nos títulos - curiosamente curtos - do poeta paraibano, que contrastam com sua preferência por palavras com muitas sílabas nos versos. Dialogando com a perspectiva já expressa no encontro, Seben concordou com o caráter simbolista na poesia de Augusto dos Anjos e apresentou as semelhanças das "estranhices" do vocabulário do poeta com o do Euclides da Cunha, que também se apropriava de termos científicas para o literário, além de usar muitos sufixos e alternar termos sofisticados com vulgares.

E, ao final da noite, o projeto de declamação poética Eletropoeteria trouxe vida nova ao texto de Augusto dos Anjos, com as distorções e o ritmo da palavra escrita auxiliados pela guitarra elétrica de Dado Vargas e pela leitura de Lucas Reis Gonçalves, provando que a obra do poeta sobrevive e parece adequada à contemporaneidade. Confira a declamação do poema Psicologia de um vencido:



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