sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Retrospectiva Açorianos: 2005

Vencedor na categoria narrativa longa: Lorde, de João Gilberto Noll

Inventar um outro que invalide a ineficácia da existência do ser real. E por isso escrever, justificam alguns. “Eu sou um outro”, postulou Rimbaud. No caso do personagem central do romance de João Gilberto Noll, não apenas a convivência consigo próprio é tediosa, mas para ele, fugir também dos personagens dos livros que criou virou uma necessidade. O autor nos apresenta o retrato de um ser cabisbaixo e saturado. Com meio século de vida, o personagem, que possui sete livros publicados e não suporta mais o próprio universo que criou, recebe uma oportunidade de ruptura. Uma figura estranha a ele lhe oferece a possibilidade de trocar sua cidade, Porto Alegre, pela terra dos lordes, de Katherine Mansfield, Oscar Wilde e Virgínia Woolf. Sem hesitar, aceita. 

O livro de Noll é como a descrição de um último suspiro, ardoso e inútil, pois, se trata do último. Desde a chegada ao país estrangeiro, o protagonista experimenta o ápice de seu declive. Primeiro, tenta modificar-se de toda forma. Muda o cabelo, utiliza das técnicas da maquiagem para desenhar-se. Tenta na anulação, conhecer algo diferente. Nessa tentativa de novo, o antigo fica em frangalhos, e ele próprio assume que virou um homem que começou a esquecer. Se torna uma pessoa sem nada a perder, sem vontades, encontrando apenas a sensação de vida em experiências sexuais, vagas e sem intimidade.

Seguimos o trajeto desse homem e sua auto-arquitetura ou auto-depravação. Seu desespero, sua sanidade perdida, seu sentimento vão. Assim como outros romances de Noll, como Berkley em Bellagio (2002), as sensações são sempre em estopim, o trajeto é sempre uma busca, a intensidade, ou a busca dela, molda o romance, e o medo do vazio acaba por gerar a realidade desse. O final do livro guarda uma resolução interessante, que atinge seus leitores com a pulsão característica desse autor. 

A intimidade extraviada percorre a obra de Noll. O escritor, formado em letras pela UFRGS, vem compondo um conjunto de obras importantes desde seu livro O Cego e a Dançarina (1980). Já ganhou diversos prêmios como o da Câmara Brasileira do Livro e cinco vezes o Jabuti (Lorde faturou esse prêmio em 2005) Também teve diversas obras que foram adaptadas no meio cinematográfico, como o conto Alguma Coisa Urgentemente, que deu origem ao filme Nunca Fomos Tão Felizes, em 1983, e Hotel Atlântico, que resultou no filme de mesmo nome em 2009. 

Noll foi bolsista e professor convidado da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Também foi escritor residente no King's College, em Londres, em 2004. Foi a partir de sua experiência na Inglaterra que ele escreveu o livro ganhador do Prêmio Açorianos de Literatura, categoria Narrativa longa, em 2005. Ao todo publicou 18 livros.

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