quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Cidadão do mundo - Gringo: Airton Ortiz

A Coordenação do Livro e Literatura está ansiosa pelos lançamentos que serão realizados em 2012. Para saber os projetos que vêm sendo desenvolvidos por autores brasileiros, procuramos abordar personalidades da literatura local sobre os textos que eles têm "engavetados", em processo de finalização. 

Conversamos com o escritor e jornalista Airton Ortiz sobre seus projetos para 2012. Leia a seguir o que o autor gaúcho tem para apresentar este ano:

Este ano vou lançar um novo romance na Feira do Livro de Porto Alegre, prática que venho repetindo nos últimos 13 anos ininterruptos. Será publicado pela Record.

O livro se chamará Gringo e contará a viagem pela América do Sul de um brasileiro recém saído da faculdade. Será um romance de formação. À medida que o rapaz for percorrendo o continente o contato com outras paisagens, outras culturas e, em especial, com outros mochileiros o fará descobrir um mundo extraordinário, que ele não imaginava que existisse.

Pretendo reunir toda a minha experiência de viajante neste romance, de forma que o leitor vá descobrindo, junto com o protagonista, um mundo complexo, cheio de aventuras, lugares mágicos, animais selvagens e humanos traiçoeiros. Enfim, o lugar ideal para cada um se por à prova e se descobrir que tipo de pessoa é, tanto fisica, emocional, psicológica como espiritualmente.

E sucumbir. Ou se adaptar ao mundo real e se tornar um sobrevivente.

Quero trazer para o Brasil o significado atual da palavra "gringo", que os mochileiros ao redor do mundo usam como sinônimo de não-nativo. Um cidadão do mundo, enfim.

Quero também agregar ao nosso vocabulário uma série de palavras usadas pelo que eu chamo de "povo da estrada", que já fazem parte de diversas linguas, mas não tem tradição no Brasil porque viajamos muito pouco e quando o fazemos o conhecimento adquiridos não passa da cantilena dos guias turísticos.

Conheço todas as locações e a história já está escrita, mas agora vou refazer os passos do protagonista na sequência descrita no livro. Pra fazer a revisão final no clima da viagem e de cada lugar.

Depois dessa apresentação rápida de sua nova obra, confira um trecho de Gringo que se passa no Salar de Uyuni, na Bolívia:



No meio da tarde se aproximam do Tunupa. O vulcão marrom-amarelado se ergue a partir de um promontório na parte norte do salar, elevação que separa o Salar de Uyuni do Salar de Coipasa, uma formação menor a noroeste.
Chegam em Jiriri, um povoado entre o salar e o vulcão, quase na encosta do Tunupa. Não aparece ninguém.
─ Vamos subir o vulcão, Victor?
─ Eu?
─ Sim.
─ Euzinho?
─ Por que não? Há uma trilha que leva direto ao topo.
─ Mas nem pensar.
─ Nós vamos.
─ Nós?
─ Eu e a Louise.
─ Como queiram. Espero vocês aqui na aldeia. Deve ter algo interessante para ver.
─ Tem sim ─ diz Escobar, o motorista nativo. ─ Arqueólogos encontraram por aqui artefatos de cerâmica, ouro e cobre anterior à chegada dos incas, prova de que os arredores do Tunupa foram habitados por uma antiga civilização bem desenvolvida. Com sorte, você acha alguma lembrança por aí.
─ Viu? Eu não disse? Espero vocês aqui.
Edward e Louise, os gringos americano e canadense,  desaparecem montanha acima, ambos com uma agilidade que deixa Victor incrédulo. Em breve estarão no cume, embora sejam quase dois mil metros de desnível.
─ Um dia ainda vou escalar uma montanha dessas, Escobar, mas ainda não é agora.
─ Esta é fácil, nada mais do que uma árdua caminhada.
─ Esse é o problema: árdua caminhada é uma expressão que não combina comigo.
─ A vista lá de cima é fantástica.
─ Imagino.
─ Há uma lenda muito curiosa neste lugar, dom. Victor. Uma lenda da época em que os incas dominaram a região.
─ Os incas vieram até aqui?
─ Vieram.
─ Vamos entrar no jipe, tá muito frio. O senhor me conta a história enquanto esperamos os gringos descerem do vulcão.
─ É uma história muito longa, dom Victor.
─ Vamos nessa. Nós temos tempo.
─ Pouco antes da chegada dos conquistadores o rei inca Pachacuti enviou o sobrinho Tupac Inca Yupanki para o sul com a missão de conquistar todas as terras que encontrasse.
─ Sul de onde?
─ Sul de Cuzco, no atual Peru, onde ficava a capital do Império Inca.
─ Já ouvi falar.
─ Bem, Tupac Inca Yupanki, além de um grande guerreiro, era um homem sábio: ele anexou o sudoeste da Bolívia e o norte do Chile sem encontrar resistência, pois sempre convencia os nativos a se integrarem ao grande império. Oferecia proteção contra os ataques dos indígenas que viviam mais ao sul. Em troca, os moradores pagariam impostos à Cuzco.
─ É dando que se recebe. Conheço muito bem esse tipo de política.
─ Bem, aqui onde estamos aconteceu uma história incrível envolvendo o chefe inca Atahualpa.
─ Aqui?
─ Aqui.
─ Aqui onde?
─ Aqui onde estamos.
─ Bem aqui?
─ Bem aqui.
─ Pô, agora fiquei curioso. Fala logo, homem de Deus.
─ Olha só, dom Victor, ao passar pelas encostas deste vulcão o grande chefe Atahualpa feriu gravemente o peito de uma mulher chamada Tunupa. O leite que havia no seio dela jorrou dias a fio, formando o salar.
 ─ Que história, hein? Quando aqueles dois malucos descerem conto pra eles.

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