segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A página assombrada por fantasmas

Um dos finalistas na categoria Conto do Prêmio Açorianos de Literatura 2011, A página assombrada por fantasmas (Rocco, 2011) é o terceiro livro de Antônio Xerxenesky (se você contar o volume de contos Entre, lançado pela editora Movimento e, digamos assim, não muito bem quisto pelo autor) e o primeiro a ser publicado por uma grande editora.
 
À primeira vista, o tema de A página assombrada parece ser a própria literatura. Os personagens estão sempre orbitando em torno disso. São leitores entusiasmados,  escritores frustrados ou não, críticos idem, etc. Mas, segundo o autor, a intenção era usar os livros como ponto de partida para falar das pessoas, da vida. Ou, como o próprio Xerxenesky explicou num texto para o Suplemento Pernambuco:
 
"Eu estava escrevendo sobre literatura e a última coisa que o mundo precisa é de mais livros que falam sobre livros. Foi nesse momento que comecei a redação do conto Algum lugar no tempo. Ao contrário dos outros textos, irônicos e ambíguos, este era um relato bastante autobiográfico que falava de minha infância ao lado de meu irmão. Meu irmão Pedro não é um grande leitor. Pelo contrário, detesta literatura, e pode contar nos dedos o número de romances que leu até o fim. A partir deste momento percebi que não podia escrever mais um livro metaliterário que interessasse apenas a outros escritores, críticos e leitores experientes. Passei a ter um norte: escreveria um livro que usasse a literatura para chegar aos seres humanos. (...) Apresentaria como tema a literatura para investigar a vida dos leitores, e, por consequência, a vida das pessoas."

E é justamente um trecho desse conto que selecionamos para a prévia do livro. Confira abaixo:

Escutamos nosso pai batendo na porta, e resmungamos que era cedo demais, a gente queria dormir até o almoço, mas o pai insistiu. A luz das frestas das persianas ainda era fraca, então olhei meu relógio digital do Batman, e os números marcavam 8:30 da manhã. "Qual é, pai, a gente quer dormir mais." Ele gritou para a gente abrir a janela, que valia muito a pena. Nessa hora, meu irmão, que dormia na cama de cima do beliche, se levantou, esfregou os olhos, desceu pela escadinha e, sem trocar uma palavra, abriu a janela e dobrou para fora a veneziana de madeira. "Bah...", exclamou. Aí a curiosidade se tornou insuportável e saí do meu esconderijo (tinha jogado o lençol por cima do rosto para não sofrer com a invasão da luz) para descobrir o motivo de tanta comoção.

Água. Por todo lado. Se a casa não ficasse em cima de uma morrinho, a água estaria quase na altura da janela. A expressão "ilhados" ganhava muito sentido naquela casa alugada. Parecíamos boiar no oceano.

A distância, vimos uma pessoa caminhando pela rua (cujas pedras não enxergávamos) com água na altura da cintura. Carregava uma sacola de pão em cima do ombro. "Puxa vida", eu disse, embora quisesse dizer "puta que pariu" (mas me acostumei a cortar os palavrões para não levar do meu pai uma biaba na orelha). "Como choveu ontem, hein?", comentou meu irmão. "Será que toda Imbé tá assim, alagada?" Dei de ombros. Ele fechou a persiana e retornamos para nossas camas, mas não conseguimos voltar a dormir. Escutei, de cima do beliche, meu irmão assobiando o riff inicial de The Evil that Men Do, do Iron Maiden, e quando vi eu já estava fazendo air guitar e cantando junto, o inglês todo errado, mas em um falsete adequadíssimo para a música que só a voz de uma criança de dez anos é capaz de produzir. O sono estava oficialmente cancelado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário