quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Loucura de Hamlet



Paula Mastroberti assina Loucura de Hamlet (Rocco, 2010), livro finalista do Prêmio Açorianos de Literatura 2011 na categoria Infanto Juvenil. A autora, graduada em Artes Plásticas pela UFRGS e atualmente doutoranda em Letras pela PUCRS, soma seus conhecimentos de academia para constituir a obra: a partir de ilustrações e "documentos" fictícios, constrói uma narrativa fragmentada, experimental, caótica - dialogando com a loucura de seu Hamlet atualizado e recriado, Tomás (ou Tommy).O livro é o último da série Reversões da autora, onde heróis clássicos são inseridos no mundo contemporâneo, num exercício onde trama e personagens consagradas da literatura ganham nova roupagem e são reapresentados ao público Infanto-Juvenil. Depois de Fausto, Dom Quixote e Ulisses, agora é o príncipe trágico de Shakespeare a receber a homenagem.

Repleto de referências à cultura pop, de As Meninas Super Poderosas a Star Wars, a história insere Tomás (Hamlet), 21 anos, que cursa Direito e tem planos de estudar em Harvard, num apartamento de luxo onde mora com o tio e a mãe. O pai de Tommy era traficante e perde a vida em confronto com a polícia. O tio, que assume o comando da família desde a morte do pai e a retira da Vila do Osso, onde moravam, é político - e Tomás o culpa pela operação policial que tirou a vida de seu pai. Nos mesmos moldes da tragédia de Shakespeare, mas imersos num palco que reflete uma sociedade infestada de violência urbana e corrupção, os atores procuram desempenhar seus papéis. Sendo assim, o protagonista, Tomás, busca extrair da morte do tio a vingança pela morte do pai. Como a história é contada pelas palavras do "herói", somos expostos a recortes, fragmentos de anotações, desenhos, ponderações alucinadas, mensagens pelo MSN e extratos de sessões com psiquiatra. A obra gera, assim, um retrato da condição abalada da psique do protagonista, tema amplamente debatido dentro da peça shakesperiana, como o leitor pode atestar a partir do fragmento abaixo:

Raiva, medo, agressão. Não, nada disso, Yoda. Eu tenho um ideal. É uma vingança, mas é um ideal. Eu tinha raiva, antes. E ando com um pouco de medo da dra. Rose.

Mas não sou um cara agressivo. Não acho que querer matar alguém signifique ser agressivo, quando se planeja isso com cuidado, controlando a emoção. Matar o Cláudio é um ideal de vingança: ele não deu um jeito no meu pai? Então. E depois, o troco vai na mesma moedo: não mato pela minha mão. Quem tá comprometido é o Horácio, louco pra sentar o dedo de uma vez. Horácio também tem seu ideal. Pensando bem, até o Fortim. Cada um acha que o seu pensamento é que é o certo, é ou não é? Até o Cláudio. Essa é uma luta por ideais, uns bons, outros ruins, dependendo do lado de quem olha. Fortim acha o mesmo que Horácio: que tem que arrancar o dinheiro da sociedade à força, já que não sobra por direito. Cláudio acha que a injustiça se corrige com conversa mole. Gertrudes pensa que a vida que leva hoje é ideal em relação à que levava antes. Só Ofélia não tinha ideal: por isso é que embaçou pro lado dela, é ou não é? Viu só? Ninguém tem culpa. O ser humano é mesmo muito miserável, não vale um dos átomo de que é feito. A gente anda como uns perdidos nesse universo, tentando definir os dois lados da Força. Estão misturados, Luke.

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