segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Aforismos



Karl Kraus não tinha medo de se aventurar com constatações. O austríaco ainda é de difícil definição enquanto ator social - podemos descrevê-lo como escritor, jornalista e filosófo; podemos classificá-lo como poeta, ensaísta, satirista, crítico e dramaturgo. Mas, conforme o título denuncia, a publicação da Arquipélago Editorial (finalista do Prêmio Açorianos de Literatura 2011 na categoria Especial), com organização e tradução de Renato Zwick, direciona o foco para a arte sintética marcante que consolidou Kraus como intelectual: Aforismos.

As frases presentes na obra, selecionadas e divididas de acordo com três coletâneas do escritor (Ditos e contraditos, de 1909, Pro domo et mundo, de 1912, e De noite, de 1916) são resultado da capacidade de concisão com a qual Kraus conseguia definir fatos, atitudes e pessoas de maneira cortante, quase agressiva, alfinetando seus "inimigos" sociais com suprema mordacidade. Os aforismos ferem até mesmo o leitor, que pode tomar insulto da aparente generalização abusiva implícita nas palavras. Para resolver esta problemática, a apresentação da obra cita Nietzsche: "Um aforismo, devidamente cunhado e moldado, ainda não foi 'decifrado' pelo fato de ser lido; ao contrário, é só então que deve começar a sua interpretação, para a qual uma arte da interpretação se faz necessária". Ou, de maneira mais sucinta quanto à "verdade" (tão prezada pela imprensa da época, que Kraus satirizava frequentemente), o próprio mestre dos aforismos explica, utilizando-se de sua própria arte para a definição concisa: "o aforismo jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia".

É fácil de interpretar na coleção do aforista, que não via publicação no Brasil há 22 anos, a fórmula de colocar fórmulas e consensos sociais em crise. Na força de quebra do que já é tido como status quo, os aforismos de Kraus dizem mais sobre a natureza do ser humano do que a categorização simples e rasa à qual somos submetidos e que aprendemos a aceitar. Confira abaixo alguns exemplos:

Quando alguém se comportou como um animal, ele diz: "Ora, eu sou só um ser humano!". Mas quando é tratado como animal, ele diz: "Ora, eu também sou um ser humano!".

"Todo mundo aqui é gente" -- isso não é desculpa, mas presunção.

O "sedutor" que se gaba de iniciar as mulheres nos mistérios do amor: o estrangeiro que chega à estação ferroviária e se dispõe a mostrar as belezas da cidade ao guia turístico.

A solidão seria um estado ideal se pudéssemos escolher que pessoas evitar.

A relação dos jornais com a vida é mais ou menos a mesma de cartomantes com a metafísica.

Compreender uma visão de mundo com um só olhar é arte. Porém, quanto não cabe num olho!

Um esnobe não é confiável. A obra que ele elogia pode ser boa.

Aqueles dois não se casaram: vivem desde então em mútua viuvez.

Meus leitores acreditam que escrevo para o dia por escrever a partir dele. Assim, preciso esperar até que meus escritos envelheçam. Então possivelmente adquirirão atualidade.

A destruição de Sodoma foi um exemplo. Durante todas as épocas se pecará antes de um terremoto.

"Democrático" significa poder ser escravo de todo mundo.

O Diabo é um otimista se acredita que pode tornar os seres humanos piores.

As verdadeiras verdades são aquelas que se pode inventar.

De início, a guerra é a esperança de que as coisas andem melhores para si mesmo; depois, a expectativa de que as coisas andem mal para o outro; então, o contentamento com o fato de as coisas também não andarem melhores para o outro, e, por fim, a surpresa com o fato de as coisas irem mal para ambos. 


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