sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Poem(a)s de Cummings

Embora Edward Estlin Cummings -- nascido a 14 de outubro de 1894 -- já fosse um nome bastante sonoro e propício a um escritor, não foi dessa forma que ele preferiu assinar seus textos, nem que o mundo veio a conhecê-lo. Preferiu algo mais conciso, semelhante a seus próprios textos. Uma abreviatura, às vezes dispensando o uso de maiúsculas. Assim, simplesmente: e.e. cummings.

Um dos artistas mais inovadores de seu tempo, cummings cunhou um estilo e linguagem bruscamente pessoais. De acordo com a Poetry Foundation, um poema seu "é preciso, empregando umas poucas palavras-chave excentricamente dispostas na página". Claro, muitos foram os que rechaçaram essa liberdade ortográfica. Um exemplo notório: o crítico Edmund Wilson certa vez afirmou que "a pontuação do sr. Cummings é também, creio, um sintoma de sua imaturidade como artista. (...) Seus poemas sobre a página ficam hediondos".

Apesar de sua verve positivamente vanguardista, cummings tratava de temas comuns. O amor, a natureza, o indivíduo. Também se valia de formas historicamente consagradas, como o soneto, para transmitir o que sentia. É o que se pode notar nas traduções abaixo, realizadas por Augusto de Campos (um verdadeiro espírito irmão do poeta, pode-se dizer) e publicadas no livro poem(a)s, da editora Francisco Alves, 1998.

agora ar é ar e coisa é coisa:traço
nenhum da terra celestial seduz
nossos olhos sem ênfase onde luz
a verdade magnífica do espaço.
Montanhas são montanhas;céus são céus -
e uma tal liberdade nos aquece
que é como se o universo uno,sem véus,
total,de nós(somente nós)viesse
- sim;como se, despertas do torpor
do verão,nossas almas mergulhassem
no branco sono onde se irá depor
toda a curiosidade deste mundo
(com júbilo de amor)imortal e a coragem
de receber do tempo o sonho mais profundo

nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

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