segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Motor de produção

Há 167 anos, nascia um dos mais importantes motores da produção literária no Rio Grande do Sul: Apolinário José Gomes Porto-Alegre. Jovem fundador do Partenon Literário, juntamente com o então consagrado Caldre e Fião, o escritor e poeta rio-grandino era filho de Antônio José Gomes e de Delfina Joaquina da Costa Campello, ambos decendentes de portugueses.

Apolinário Porto-Alegre mudou-se para a capital juntamente com sua família ao acompanhar a transferência de emprego do pai, funcionário da Fazenda. Terminando seus estudos na cidade, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, e lá permaneceu até a morte de seu pai. Já em Porto Alegre, pôs-se a dar aula, com apenas 17 anos, para sustentar a mãe, a tia e seus três irmãos menores. Depois de descobrir-se um qualificado professor,  fundou, ao lado do irmão Aquiles, o colégio Porto Alegre em 1867. Além desse colégio, que passou a  Colégio Rio-Grandense nas mãos de seu outro irmão, Apeles, o poeta criou também o Instituto Brasileiro, seu maior e mais ambicioso projeto republicano.


Na historiografia literária, Porto-Alegre é comumente lembrado pelos seus poemas e pela publicação de O vaqueano, obra por muitos considerada resposta ao romance O gaúcho, de José de Alencar.
 
O Vaqueano, publicado em 1872.
O inverno desatava as madeixas emperladas de gelo, tão triste que magoava o coração e despertava idéias sombrias, como céus e terras.

Não sei que íntima e mística afinidade existe entre a natureza e a alma humana, que a morte-cor de uma se reflete na outra como em bacias de límpidas águas, que o múrmur surdo e merencório desta, como num tímpano, encontra ecos naquela.

Inverno é um cemitério! Sazão de morte que não poupa a terna vergôntea, nem as catassóis da asa do colibri! Por isso o calafrio que se sente quando ele se aproxima, o terror que vaga na floresta e na campina, a palidez do manto de verduras, a ausência dos cantores plumosos... e depois o minuano! Como é cruel, ele que fustiga a árvore secular, que aspergia doce sombra no ardor da sesta, até lhe arrancar uma por uma as folhas de seu diadema! Que cresta a várzea há pouco vicejante alfombra! que torna a linfa de onda argentina e anodina, fria como uma geleira, silenciosa como um ermo, ingrata ao lábio na exsicação da sede!

Quem pode amar-te quadra sem sombras, brisas, cantos e flores? Período que espasma a vida e congela a flor das alegrias?

Só quem não sente, alma embotada para as sensações brandas e suaves, que rodeiam a existência de uma gaza transparente e rósea que se chama poesia!

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