quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Aniversário de um gigante

Jorge Luis Borges não acreditava em biografias. Para ele, o fato de "um indivíduo querer despertar em outro recordações que pertenceram a um terceiro é um paradoxo evidente." 


Paradoxo ou não, há exatamente 112 anos, nascia, no bairro bonaerense de Palermo, Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo. Filho de uma tradicional família portenha (orgulhava-se de possuir antepassados que figuraram nas diversas revoltas pela independência argentina), foi na biblioteca do pai que Borges se criou, tendo contato desde cedo com clássicos ingleses e espanhóis. Antes dos 10 anos, já tinha traduzido textos de Oscar Wilde e lido boa parte das peças de Shakespeare.


Em 1919, embarcou com a família para a Espanha, onde foi fortemente influenciado pelas vanguardas artísticas que ali floresciam. Frequentou por muito tempo as famosas tertúlias presididas por Rafael Cansinos Assens. Voltou em 1921 a Buenos Aires, cidade que considerava "tão eterna como o mar e o vento" e que deixaria em poucas ocasiões pelo resto de sua vida. Lá, escreveu boa parte de seus contos, poemas e ensaios, foi diretor da Biblioteca Nacional e lecionou na Universidad de Buenos Aires.




Borges sempre foi uma figura controversa, ainda mais quando vivo. Numa época em que o engajamento político era um requisito básico para os artistas, ele chocava a muitos com sua postura conservadora e anti-comunista. Também ajudava o fato de possuir um humor mordaz e irrepreensivo, sempre disposto a emitir opinião (chamou García Lorca de "andaluz profissional" e criticou duramente Pablo Neruda, eterno desafeto).



Nas palavras de Roberto Bolaño, outro gigante latino-americano e admirador confesso da obra do argentino, vários são os méritos de Borges. Além de ter escrito "dois livros de contos que provavelmente são os dois melhores livros de contos escritos em espanhol no século 20", ele também era dono de "uma escrita clara, uma leitura de Whitman, talvez a única que ainda se mantém de pé (...), uma aproximação honesta do verso inglês. E nos dá aulas de literatura que ninguém escuta. E lições de humor que todos acreditam compreender e que ninguém entende."
Homenagem que o Google prestou ao escritor



Leitor inveterado de Borges, Luís Augusto Fischer nos concedeu esta breve entrevista sobre a percepção que os leitores têm dele e de sua semelhança com Machado de Assis.

CLL - Borges é visto como alguém muito frio, cerebral, tanto na vida quanto na obra (há até mesmo acusações de misoginia). É uma concepção errada que temos dele?

Luís Augusto Fischer - Acho que não. O temperamento de Borges é mais clássico do que romântico, o que não o impede de ser um grande escritor. Mesmo na poesia, se você for ver, ele era controlado, preciso,  pouco sensualista.

CLL - Queria que você explicasse melhor o ponto de comparação usado no livro Machado e Borges.
Luís Augusto Fischer - Nenhum dos dois embarcou no realismo. O negócio deles era trabalhar com a análise psicológica dos personagens, fazer jogos com a própria forma, com a literatura. Nesse sentido, eram muito parecidos.

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