quarta-feira, 13 de julho de 2011

Rock no FI

O Live Aid foi um concerto simultâneo (ocorreu em Londres e na Filadélfia) organizado pelo músico irlandês Bob Geldof. No dia 13 de julho de 1985, bandas como The Who, Led Zeppelin, U2 e Black Sabbath subiram aos palcos das duas cidades a fim de arrecadar fundos para combater a fome na África. A ONU aproveitou a data para instituir o Dia Mundial do Rock.

Por falar no assunto, uma das atrações do 6º Festival de Inverno é um dos ícones do gênero no país. João Luiz "Lobão" Woerdenbag Filho virá ao Teatro Renascença para falar sobre sua carreira, relatada na autobiografia 50 Anos a Mil (Ediouro, 2011). O evento ocorre dia 25 de julho, às 15h.

Lobão compôs alguns dos rocks mais conhecidos do Brasil ("Me Chama", "Vida Louca, Vida", "Vida Bandida", "Noite e Dia", "Radio Blá") e foi agente ativo da efervescência musical nos anos 80 -- fundou e batizou a Blitz, compôs junto com Cazuza, teve rusgas com metade dos artistas da época. No fim dos anos 90, ficou conhecido por ter rompido com as gravadoras. O lançamento de A Vida é Doce ocorreu num esquema até então inédito, com distribuição pela internet, bancas de jornais e lojas de departamento. A partir de 2005, passou a apresentar programas de TV nos canais PlayTV e MTV, onde trabalhou de junho de 2007 à dezembro de 2010.


Confira abaixo um trecho da autobiografia de Lobão, disponibilizado no site da editora Ediouro:


Rio, junho, 1984


Quatro da manhã, cemitério do Caju... Madrugada fria e a gente não parava de chorar... Escondidos, perambulando feito fantasmas, arrastando corrente, pelos cantos do velório… almas penadas.


Àquela hora, não havia mais ninguém na sala com o Júlio, exceto eu e Cazuza, que, por todos os motivos do mundo, não conseguíamos parar de olhar para o caixão fechado, nem parar de chorar, nem deixar de ir ao banheiro cheirar mais, pra continuar chorando: “Perder um cara como o Júlio é como uma decapitação… A gente ficou órfão do nosso irmão mais velho”, sussurrei para um Cazuza igualmente desmoronado, que me respondia: “Órfãos e fudidos, você quer dizer”, e emendou: “Vão chupar a nossa carótida...”

Sim, essas visões sombrias já pairavam no ar o tempo todo. Não parávamos de imaginar as consequências
daquela perda. A minha desolação era inédita; nunca estive me sentindo tão dentro do fim, tão nada e com a alma sangrando.

Vomitava meus pavores: “Agora estamos à deriva. A gente naufraga aqui. Esse velório, esse cemitério, essa morte é como se estivéssemos chegando nas portas do inferno. A partir de agora, todas as nossas esperanças serão deixadas do lado de fora. Todas as esperanças de conquistarmos a nossa autonomia, a nossa estética. Perdemos o trem da história, Cazuza. Sem o Júlio nós não temos mais uma turma; agora somos um monte de ninguéns!... Chegou a hora dos nossos inimigos se apoderarem da cena pra formar alianças, justamente com aqueles que mais queríamos ver longe. É a hora do pastiche e da indulgência… A hora do frenesi dos mesmos cadáveres insepultos de sempre, sugando a juventude dos que nada mais têm a oferecer, além do próprio sangue de barata. É a hora dos come-quieto nos fazerem de vilões. É a hora da morte da possibilidade da transformação, da morte da nossa ingênua esperança em querer mudar o mundo. É a hora da morte da liberdade do delírio... O Universo não conspira mais a nosso favor. O inferno é aqui e agora, e nossas esperanças ficaram num céu natimorto.”


Estava delirantemente transtornado pela dor e vagamente anestesiado pela cocaína; sem que necessariamente estivesse inteiramente fora do meu juízo.

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