terça-feira, 12 de julho de 2011

Literatura para além da obrigação

Contos gauchescos, de João Simões Lopes Neto, obra primeiramente editada em 1912, é composta por uma reunião de dezenove contos narrados pelo velho vaqueano Blau Nunes. Ambientadas no pampa rio-grandense, as histórias elaboradas à maneira peculiar e distintiva do contador fazem do discurso formal uma ferramenta de composição original na mão do autor. Dentre as características mais marcantes desses contos, está o foco direcionado à fixação do mundo do gaúcho, do guerreiro, do trabalhador e o retrato da oralidade. Para uma apresentação razoavelmente justa, nada mais apropriado que deixar Blau Nunes falar por si mesmo:

- Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezigue. Já senti a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas da lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana; molhei as mãos no soberbo Uruguai; tive o estremecimento do medo nas ásperas penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas planícies do Saicã, oscilei sobre as águas grandes do Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada fortaleza de Santa Tecla, pousei em São Gabriel, a forja rebrilhante q
ue tantas espadas valorosas temperou, e, arrastado no turbilhão das máquinas possantes, corri pelas paragens magníficas de Tupaceretã, o nome doce, que no lábio ingênuo dos caboclos quer dizer os campos onde repousou a mãe de Deus...

Nesse pequeno trecho da apresentação dos contos, dá-se a voz a um narrador que supostamente toma a posição de Blau Nunes, mas com um vocabulário ainda mais universal do que o discurso regionalista encontrado no decorrer dos contos. Expressões como “guaiaca”, “taura”, “chinoca” e “foliona” permeiam a obra e destacam-se como a apresentação de um dialeto da região. A um só tempo, essas expressões compõem uma obra em um formato de linguagem universal e classificam-se como uma distinção de registro local.

O NEGRO BONIFÁCIO

Se o negro era maleva? Cruz! Era um condenado!... mas, taura, isso era, também! Quando houve a carreira grande, do picaço do major Terêncio e o tordilho do Nadico (filho do Antunes gordo, um que era rengo), quando houve a carreira, digo, foi que o negro mostrou mesmo pra o que prestava...; mas foi caipora.
Escuite.(...)

Contrapondo-se à marcação de singularidade da linguagem da obra, um dos principais relatos sobre o texto é aquele lembrado pelo ensaísta Augusto Meyer: "os contos de sangue e paixão". Mesmo que todos estes contos tenham como resultado explícito a apresentação dos costumes e peculiaridades da região pastoril e a relação de personagens incluídos na vida violenta gaúcha, há neles um círculo tão cego e intenso de sentimentos rudimentares que o puramente regional é deixado para trás por algo de outra relevância: o indivíduo global, com sua ignorância e seus desatinos.



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