sexta-feira, 22 de julho de 2011

Adolescência tardia

Dia 23 de julho marca a última data do seminário Livros que Abalaram o Mundo - Módulo II. O professor de literatura e filósofo Eduardo Wolf vai discutir o clássico norte-americano O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger. Pedimos a Carlos André Moreira, mediador da palestra, que elaborasse uma questão sobre o livro. Confira a resposta de Eduardo abaixo:

Carlos André Moreira - O Apanhador no Campo de Centeio permanece atualíssimo como um retrato da angústia do adolescente deslocado. Além, é claro, das qualidades do livro em si, isso pode ser atribuído ao fato de que o território da adolescência parece estar se estendendo na atualidade para bem além dos 20 anos?

Eduardo Wolf - Em primeiro lugar, vale lembrar que o tipo de crise pela qual passa o protagonista do livro, Holden Caulfield, é bastante peculiar: uma recusa daquilo que há de superficial, vazio e falso no que ele vê do mundo adulto. É contra esses traços do mundo adulto que está a revolta de Holden. É claro que podemos dizer que se trata de uma crise “adolescente”, mas é importante notar que o que ele valoriza é uma certa pureza emocional, espiritual, que está preservada na infância.

Já no caso desse nosso fenômeno contemporâneo de prolongamento da adolescência para idades por vezes surpreendentemente avançadas, o que temos não é, a meu ver, uma ânsia de fugir à falsidade e à banalidade da vida adulta convencional, não é uma recusa da superficialidade e do vazio em nome de uma experiência subjetiva autêntica. Pelo contrário, o que vejo nesse fenômeno é um desejo de preservar precisamente essa banalidade, essa superficialidade; é não querer dar o passo para a vida adulta, mas por outros motivos. Enfim, Holden parece enfrentar uma crise pessoal terrível diante das perspectivas do mundo adulto que vê ao seu redor; nossos kidults, nossos “adolescentes” tardios (de 30, 40 anos até) não passam por crise alguma. E isso precisamente porque abraçaram a superficialidade, fizeram a escolha de prolongar o banal e o falso. São subjetivamente atrofiados.

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