terça-feira, 14 de junho de 2011

Dos pampas para mundo


A cultura e a literatura gaúcha relembram hoje os 95 anos de falecimento de seu maior ícone. João Simões Lopes Neto, autor dos Contos Gauchescos e Lendas do Sul, foi o escritor e empreendedor pelotense que lançou as bases para o que hoje entendemos por tradicionalismo na cultura gaúcha.

Nascido em 9 de março de 1865, Simões Lopes teve contato com a vida campeira somente até os 13 anos, quando seguiu para o Rio de Janeiro a fim de realizar os estudos preparatórios para a faculdade de Medicina, que não chegou a concluir. Regressando à Pelotas em 1886, levou uma vida urbana e empreendedora, dedicando-se a diversos ramos, como como destilaria, vidraçaria, moagem e torragem de café, além da infame fábrica de charutos, cujo nome Marca Diabo causou polêmica com a Igreja. Vale destacar que apesar de Simões Lopes não ter obtido o devido reconhecimento em vida, já que suas principais obras só foram lançadas em 1949, a consagração mundial viria com o fato de Lendas do Sul ser o primeiro livro em Português a ser disponibilizado gratuitamente no Projeto Gutemberg.

De acordo com o professor e doutor em Literatura, Flávio Loureiro Chaves, a importância de ler Simões Lopes Neto ainda nos dias de hoje está no fato de ele ter sido um autor regionalista que superou a temática gaúcha apresentando aspectos universais, tais como o confronto entre o homem e a natureza, os contrastes entre o masculino e o feminino e a questão da persistência individual. Nesse sentido, o maior legado de sua obra estaria em ter universalizado a figura do gaúcho. Assim, a figura no narrador Blau Nunes, dos Contos Gauchescos, importaria muito mais como uma tradução desses sistemas universais.

Quanto às possíveis dificuldades em relação à linguagem da obra, que buscou retratar fielmente a linguagem do homem dos pampas, linguagem essa hoje praticamente perdida nos contextos urbanos, Flávio Loureiro Chaves lembra que são essas as dificuldades encontradas em todas as grandes obras universais, tais como as de um Joyce ou um Proust, e que todo grande texto, mais do que dificuldades, apresenta, isto sim, desafios ao leitor. Para Chaves, a literatura existe, entre outras coisas, para isso: para desenvolver e ampliar a competência e o repertório linguístico dos leitores.

Já na opinião do músico Ernesto Fagundes, o grande legado de Simões Lopes Neto à cultura gaúcha estaria na influência que seus textos exerceram para poetas como Jaime Caetano Braun, Aparício da Silva Rillo ou Lauro Rodrigues, entre tantos que cantaram e ainda cantam a cultura do nosso chão.

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