quarta-feira, 14 de julho de 2010

Literatura abaixo de zero

Geada em Caxias do Sul no inverno de 2008. Foto: Juan Barbosa/Agência RBS

Exagero ou não, ontem termômetros e outros ômetros denunciaram sensação térmica de -17ºC na (belíssima, diga-se) cidade de São José dos Ausentes. Em Porto Alegre, a tal "sensação" também se enveredou por índices negativos. Depois de um par de finais de semana bastante amenos, quase veranescos, o frio chegou rachando. Nesses tempos de aconchego, nada melhor que procurar calor e companhia nas páginas de um bom livro.

Em se tratando de frio e literatura, é impossível deixar de fora os autores que mais entendem do assunto: os russos.

Na obra de Dostoievski, o frio não apenas oprime fisicamente, mas é o cenário propício para a atormentação psicológica de seus personagens. Em Crime e castigo, o gelo da cidade é rasgado pelo sangue quente do crime e a culpa febril de Raskolnikov. Mítia encontra na farra e na bebida seus correlatos em temperatura, avessos à frieza pacata do vilarejo de Os irmãos Karamazov. Na mesma obra, Aliocha cuida da saúde do starets Zózima, protege um menino das bolas de neve lançadas por seus colegas mirins e tenta encontrar acalento religioso para as dúvidas enregelantes que lhe estremecem a fé. Notas do subterrâneo, em que Dostoievski inaugura a literatura existencialista, é um dos romances que revelam a amargura e a introspecção que o autor herdou de sua passagem de quatro anos pela prisão de Omsk, na gélida Sibéria.

Tchekhov, o grande mestre contista, conviveu com a tuberculose (e previu que morreria vencido por ela), doença que, junto ao tifo, levou seu irmão. Ajudou a combater a fome e as epidemias que, causadas pelo clima, assolavam a população russa. O início de Angústia imita a beleza da neve mansa sobre as casas: "Anoitece. A neve graúda e úmida gira preguiçosamente ao redor dos lampiões recém acesos e deita-se em placas macias e finas nos telhados, nos lombos dos cavalos, nos ombros, nos gorros." A noite segue, o cocheiro Iona recebe seus passageiros e esconde as tristezas que apenas irá segredar para sua égua, a companhia que lhe aquecerá as mãos.

Tolstoi também foi vítima da tuberculose, doença que contraiu quando fugia da família - o escritor buscava uma vida simples, longe do conforto que a mulher e os filhos lhe exigiam -, viajando nos vagões de terceira classe dos trens russos. Se seus temas costumam abranger a aristocracia russa, menos suscetível às mazelas do clima, a obra de Gorki abarca bem o sofrimento dos operários, prostitutas e mendigos no frio cortante das ruas.

O jornalista americano John Reed, em que pese não ser russo, descreve com precisão a fome e o frio que impulsionaram a revolução bolchevique.

Também estadunidense e também jornalista, Truman Capote explorou outra forma de frieza: aquela que possibilita o homicídio. Em A sangue frio, o escritor relata o assassinato de uma família na cidade de Holcomb, no interior do Kansas. Um casal e dois filhos foram amarrados, amordaçados e mortos a tiros para que apenas um rádio fosse roubado. Esse desapego à vida figura em diversas outras obras - chegando mesmo a ser a tônica do trabalho de vários autores -, mas o livro de Capote merece menção aqui por estampar o frio no título.

Já o compositor, cantor e escritor Vitor Ramil não dedicou apenas um título para o frio, mas um livro inteiro. A estética do frio versa sobre o quanto o indivíduo está arraigado à sua geografia natal, ao clima de sua terra. Sentindo-se isolado no calor do Rio de Janeiro, Ramil assiste ao Jornal Nacional e acompanha as notícias curiosas sobre a chegada do inverno no Rio Grande do Sul. A ideia de que o frio é um fenômeno tipicamente gaúcho faz com que Ramil conclua: "Passei a ver o frio como metáfora amplamente definidora do gaúcho." O frio define as identidades, molda a cultura, confere à milonga acordes menores e menlancólicos - se estende, portanto, a uma estética.

Poderíamos ainda falar no best seller Neve, de Orhan Pamuk, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, e ainda de outros autores locais, nacionais e estrangeiros... Mas está muito frio para digitar! Por isso, perguntamos: qual é o livro ideal para se ler no inverno? Que obras melhor caracterizam o frio?

2 comentários:

  1. Ótima lembrança! Um dos grandes livros do Jack London. Aliás, é uma boa pedida para quem acha que uma boa história sobre cão é "Marley & Eu". E o frio do Alasca não deve nada para o da Sibéria!

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